Super-Tite contra o Baixo Astral

Tite na Seleção e as injustas expectativas de parte da imprensa

O anúncio oficial da contratação de Tite como o novo técnico da Seleção Brasileira trouxe consigo uma quantidade significativa de textos na imprensa especializada criticando a opção do técnico gaúcho em aceitar trabalhar para aquele contra quem assinou um manifesto há cerca de seis meses.

A recusa de Tite seria um sopro de esperança para o Futebol Brasileiro. Tite recusar a seleção seria o tapa na cara que a direção da CBF merece. Adenor poderia contribuir mais para o futebol recusando a seleção do que aceitando trair seus princípios. Tite até poderia ter aceitado, mas teria que fazer exigências e colocar Marco Polo contra a parede. O beijo de Marco Polo é o retrato final da traição de Tite.

Frases como estas pulularam em textos, textões e tuítes. Mas é justo cobrar isso de Tite?

Recusar a seleção não mudaria a o Futebol Brasileiro.

Martin Fernandez, do site Globoesporte.com, foi preciso em menos de 140 caracteres:

É difícil ser mais claro que isso. Se Tite houvesse recusado, a oferta teria sido feita a outro treinador. E se este tivesse recusado, teria sido feita a outro treinador. E a outro. E a outro. E alguém aceitaria. E a seleção não acabaria. E nada mudaria fora das quatro linhas. A recusa de Tite seria carregada de simbolismos, mas, depois dos 7×1, alguém ainda acha que o que falta para o futebol brasileiro são símbolos do fracasso?

Do mesmo modo que a recusa não mudaria o Futebol Brasileiro, o aceite de Tite também não tem este condão. Nossos problemas hoje são, acima de tudo, estruturais. É evidente que é mais fácil eleger indivíduos como vilões: Teixeiras, Marins, Del Neros, Euricos, etc. Vilões e heróis personificados geram boa reportagens e belas narrativas, mas não geram soluções. Se tiver alguma dúvida, pergunte ao torcedor vascaíno…

É claro que problemas e soluções passam por indivíduos, mas não podemos esperar ou cobrar de Tite mais do que ele pode oferecer. Tite é treinador, não é dirigente, não é político. Se Tite resolver os problemas da seleção dentro de campo, isso será ótimo. Se Tite abrir maior diálogo com outros treinadores, inclusive das equipes de base, isso será excelente. Mas nada que ele faça será capaz de resolver os problemas de gestão financeira dos clubes, desorganização do calendário, esvaziamento dos estaduais, disparidade na distribuição da renda de TV, êxodo de jovens jogadores, etc. Tite na seleção não será capaz de resolver isso. Tite fora da seleção não seria capaz de resolver isso.

Por mais que alguns corintianos duvidem, Tite é ser humano, não é super-herói ou divindade…

 

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