São Paulo Futebol Clube – O Mais Querido (?)

Como a direção tricolor acaba com a imagem da equipe que outrora ganhou o título de “O Clube Mais Querido da Cidade de São Paulo”

 

Relata a história que, no auge do Estado Novo, o São Paulo Futebol Clube ganhou a alcunha de “O Mais Querido”. O apelido advindo de manifestações políticas anti-Vargas, quando da inauguração do Pacaembu, fora posteriormente confirmado por concurso público promovido Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda.

Embora tal concurso público tenha tanta precisão quanto àquele promovido pela Pepsi-Cola na década de 1950 que determinou o Aimoré como equipe com maior torcida do Rio Grande do Sul, não se tem dúvidas que a população Paulistana nutria alguma simpatia especial pelo SPFC. Episódios como o famoso Jogo das Barricas, em que Palestra e Corinthians serviram como atração principal de festival esportivo para “prestar auxilio moral e financeiro ao clube, legítimo representante do futebol bandeirante”, denotam claramente que a alcunha de “mais querido” possivelmente não era completamente desprovida de verdade.

É bem provável que a imagem da equipe tenha ficado abalada após tentativas de usurpação do patrimônio alheio, bem como a fuga de campo no momento mais épico e belo da história do futebol universal, conhecido como Arrancada Heroica de 1942. No entanto, embora possa ter deixado de fazer jus ao epíteto de “O Mais Querido”, não há dúvidas de que a equipe do Morumbi tampouco fazia jus ao título de “O Mais Odiado”, invariavelmente reservado às equipes com maior torcida (Corinthians e Flamengo), com dirigentes de práticas questionáveis (Vasco da Gama), ou àquelas equipes que por obra do acaso ou do STJD não veem se concretizar o rebaixamento ocorrido em campo (Fluminense).

Com isso em mente, é surpreendente o esforço que o SPFC tem feito ao longo dos últimos anos a fim de angariar antipatia dos rivais.

Por parte da direção tricolor, eventos como a mudança do local da final da Libertadores de 2005, bem como a retirada da partida do Moises Lucarelli na Sul-americana do ano passado, denotaram pequenez de espírito travestida de cumprimento do regulamento.

No campo das contratações, os supostos “roubos” de atletas de outras agremiações, sejam das categorias de base, sejam dos plantéis profissionais (quem não se recorda do caso Dagoberto?), foram minando qualquer simpatia que torcedores das agremiações prejudicadas (frise-se que muitas vezes por incompetência de suas próprias diretorias) porventura ainda pudessem nutrir pelo autointitulado Soberbo Soberano.

Dentro das quatro linhas, a autoconfiança de Rogério Ceni, percebida como arrogância pelos torcedores rivais, teve papel reverso daquele que o contemporâneo Marcos fazia pelo Palmeiras. Se não bastassem as declarações do responsável pela “maior atuação que um goleiro já teve com a camisa da Seleção Brasileira”, atos como o de Bosco no antigo Palestra Itália só serviram para arranhar ainda mais uma imagem já desgastada.

Apesar da crescente antipatia, a direção são-paulina parece não ver motivos para mudar seu discurso ou estratégia, como os eventos das últimas semanas, principalmente dos últimos dias, deixam claro.

Se o final da gestão Juvenal Juvêncio foi marcado pela repetição de suas frases de efeito (e invariavelmente inadequadas e desrespeitosas, apesar do tratamento diferenciado que parte da imprensa lhe dispensava), o início da segunda gestão Carlos Miguel Aidar aponta para um aprofundamento dessa desastrada estratégia.

Se não bastassem as discussões geradas por potenciais conflitos éticos pela sua atuação como advogado da CBF no caso Portuguesa, antes da sua eleição Aidar resolveu reproduzir o discurso de JJ sobre a localização do estádio corintiano, sede Paulista para a Copa do Mundo.

Embora Juvenal tenha sido mais rasteiro direto em suas restrições sobre o bairro de Itaquera, Aidar não fez muito melhor ao afirmar que Itaquera “é outro mundo, outro país, não dá para chegar lá”. Ambos parecem ignorar, no entanto, que são-paulinos compõem quase 20% da população da Zona Leste, para não mencionar as dificuldades de acesso ao Cícero Pompeu de Toledo.

Ontem, no entanto, Aidar foi ainda mais longe ao destilar seu preconceito, inclusive contra sua própria torcida, como bem destacou José Antonio Lima no Blog Esporte Fino. Afinal, segundo Aidar, Kaká

(…) tem a cara do São Paulo, alfabetizado, tem todos os dentes na boca, fala bem (…)

Talvez Aidar tenha a sorte que Juvenal teve e veja a imprensa reagir com risos às suas desrespeitosas frases. Independente disso, a instituição que preside sai prejudicada, ficando cada vez mais longe dos tempos em que fazia jus ao epíteto que ganhou na década de 40…

 

 

 

P.S.: Admito que pensei em incluir no texto as declarações de PH Ganso, que ontem afirmou que “Como armador, não vejo ninguém no Brasil acima da média, como eu”. Até que li o restante da declaração, quando afirma que “O Luis [Fabiano], para mim, é um dos melhores centroavantes do mundo”. Evidentemente o meia são-paulino estava tirando sarro dos jornalistas presentes…

 

 

A foto da capa é de Rubens Chiri/saopaulofc.net 

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