Quem nunca…

Fair play, justiça desportiva e malandragem: a ontologização do cartão forçado

 

É batata. Sempre que a data FIFA para partidas entre seleções está prestes a chegar, algum jogador aparece no noticiário, acusado de ter forçado sua punição. Segurar a bola demais, exagerar na cera, colocar deliberadamente a mão em alguma lance ou dar uma entrada mais violenta podem parecer comportamentos atípicos para um futebolista durante os momentos finais de uma partida já resolvida, mas a lógica por trás do ato supostamente aberrante é simples.

Considerando que os campeonatos no Brasil não são interrompidos durante as datas FIFA, o jogador convocado é desfalque certo já no momento da divulgação da lista de atletas, por 1 a 3 jogos, fora o desgaste da viagem. Ao mesmo tempo, o acúmulo de 3 cartões amarelos nas diversas competições disputadas gera uma suspensão automática. Por que não juntar as duas situações, aproveitar uma ausência assegurada e antecipar uma eventual suspensão futura, por motivos disciplinares?

Foi o que pensou Valdívia, sábado, em cotejo contra o Paraná Clube. Convocado para La Roja, o mago alviverde da Série B deliberadamente atrasou sua substituição, provocando a terceira admoestação acumulada. A reação do atleta e as declarações posteriores deixam evidente que a advertência não foi lamentada pelo atual líder da divisão de acesso.

Contudo, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva parece não compartilhar do sentimento do chileno especialista em chinelos.  O presidente da entidade, Flavio Zveiter, assim como o procurador, Paulo Schmitt, acusam o jogador de ter desrespeitado o Código Brasileiro de Justiça Desportiva, ameaçando julgá-lo com base no artigo 258, que diz:

Art. 258. Assumir qualquer conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva não tipificada pelas demais regras deste Código. (Redação dada pela Resolução CNE nº29 de 2009).

PENA: suspensão de uma a seis partidas, provas ou equivalentes, se praticada por atleta, mesmo se suplente, treinador, médico ou membro da comissão técnica, e suspensão pelo prazo de quinze a cento e oitenta dias, se praticada por qualquer outra pessoa natural submetida a este Código. (NR).

§ 1º É facultado ao órgão judicante substituir a pena de suspensão pela de advertência se a infração for de pequena gravidade. (AC).

§ 2º Constituem exemplos de atitudes contrárias à disciplina ou à ética desportiva, para os fins deste artigo, sem prejuízo de outros:

I — desistir de disputar partida, depois de iniciada, por abandono, simulação de contusão, ou tentar impedir, por qualquer meio, o seu prosseguimento; (AC).

II — desrespeitar os membros da equipe de arbitragem, ou reclamar desrespeitosamente contra suas decisões. (AC).

 

Caso a promotoria desportiva tenha êxito, tratar-se-ia de caso novo no futebol nacional. Afinal, Valdívia não foi o primeiro jogador a forçar um cartão, por convocação ou não, mas seria, provavelmente, o primeiro punido pelo ardil.

Vale lembrar alguns casos recentes:

  1. Paulinho (então no Corinthians), em 2012;
  2. Neymar (então no Santos), em 2011;
  3. Borges (então no Santos), em 2011;
  4. Thiago Neves e Ronaldinho Gaúcho (então no Flamengo), em 2011;
  5. Léo (então um jogador em atividade, no Santos), em 2010.

E alguns nem tão recentes assim, em que jogadores buscaram um cartão para ter vantagem posterior:

  1. Luizão (então no Corinthians), em 1999;
  2. Edmundo (então no Vasco), em 1997;

No caso dos ex-flamenguistas, houve julgamento no mesmo STJD, que os absolveu de forma unânime. Isso, no mínimo, demonstra existir certa incongruência no mais importante tribunal desportivo do país, o que não surpreende ninguém. Ou não deveria.

O fim da leniência usual, entretanto, pode ter suas razões. Além das cornetadas bairristas, clubísticas e até chauvinistas, o exemplo que vem da Europa pede por mais rigor aos atos considerados antidesportivos.

Em 2010, Sérgio Ramos e Xabi Alonso estiveram perto de serem suspensos ao forçarem a expulsão durante partida do Real Madrid contra o Ajax, ainda na fase de grupos da Copa dos Campeões. Acabaram multados. Novamente, em 2013, os mesmos jogadores foram investigados por receber, de forma deliberada, cartões que os suspenderam da partida de volta contra o Galatasaray.

Joseph Blatter, presidente da FIFA, chamou o estratagema de “decepcionante”, ao ser realizado por David Beckham, em 2004. E em 2008, a UEFA multou os brasileiros Cris e Juninho Pernambucano, então atletas do Lyon, por manipular as suspensões automáticas.

Até que ponto pode um tribunal desportivo avaliar a intenção de um jogador? Até que ponto essa atitude não tipificada constitui desrespeito ao fair play? Até que ponto um campeonato que não é interrompido durante as datas FIFA pode punir um time e um atleta que tentam minimizar os prejuízos causados pelos jogos das seleções? Até que ponto ainda vale a pena tirar sarro de Valdívia?

Faça a sua parte: comente, cornete ou defenda o chileno!

Comments

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  • Se existia alguma chance de alguém concordar com o a posição do Zveiter, ela caiu por terra a partir do momento em que o Emerson Sheik, o mordedor de rivais, se coloca como defensor da ética e do fair play no futebol…

  • jef

    O argumento é que faltou malandragem ao Chinelo Chileno para omitir o plano diabólico, caso contrário, estaria tudo bem. Eita Brasil

    • Thiago Netz

      O argumento é que o STJD quer aparecer, e por mais questionável que seja manipular a suspensão, não passa perto de ser antidesportivo. E, num calendário horrível, que pune os times por ter um jogador convocado, é uma artimanha válida.

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