Pontos corridos não é uma questão de gosto

Por que a manutenção do Campeonato Brasileiro por pontos corridos deve ser defendida como benéfica para o futebol nacional

 

A 34ª rodada O intervalo da 34ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2013 encerrou-se com a definição antecipada da equipe campeã. O Cruzeiro Esporte Clube garantiu a liderança sem que fosse necessário disputar todos os jogos, situação que não é inédita nos 11 anos desde a implementação da disputa por pontos corridos.

Em 2003, o próprio Cruzeiro assegurou o caneco com 2 rodadas de antecedência, assim como o São Paulo, em 2006. No ano seguinte, a mesma equipe do Jardim Leonor Vila Sônia Morumbi Jardim Leonor necessitou de menos rodadas para conquistar o bicampeonato, 34. E, em 2012, o Fluminense encerrou a disputa principal com 3 rodadas para o fim.

Acreditando que a definição precoce do campeão encerra todas as demais disputas da temporada regular, muitos aproveitam os exemplos supracitados para reabrir a discussão acerca da forma de disputa. Ao longo dos 32 anos em que se utilizou alguma forma de playoffs (1971 a 2002), o Campeonato Brasileiro alterou seu regulamento a cada edição. Manteve sempre, contudo, a realização de uma disputa que pudesse ser considerada decisiva, ou seja, uma final (em 1971, um triangular decisivo).

O sistema de playoffs é utilizado nos mais importantes torneios do futebol mundo: a Champions League, a Copa do Mundo e a Libertadores são exemplos mais que significativos da importância do formato. De igual maneira, outros esportes fazem valer finais, após período de disputas entre grupos. É o caso do Super Bowl, da Stanley Cup e da World Series. Há espaço para eles e para a emoção que os mata-matas acarretam. Não por acaso, a temporada do futebol do Brasil conta, segundo proposta de calendário da CBF para 2015, com a Supercopa do Brasil, os Estaduais e a Copa do Brasil, além da Libertadores, da Sul-Americana e da Recopa, em âmbito continental.

Isso significa a ocorrência de finais em Fevereiro, Maio, Julho, Novembro e Dezembro.

Essas partidas, que muitos consideram como históricas e inesquecíveis, são parte central da argumentação em prol do fim da disputa por pontos corridos. Elas simbolizariam a essência do esporte bretão, pela exaltação de jogos determinantes e pela possibilidade de subversão da lógica (como foi em 2002 e em 1990, por exemplo, quando os últimos classificados sagraram-se campeões). Mais emoção, mais torcida, mais audiência, mais renda e mais repercussão são mantras da defesa de uma partida de encerramento que passa a valer por toda uma temporada.

Os times envolvidos nos estágios avançados certamente têm muito a comemorar. O Atlético-MG logrou arrecadar mais de 14 milhões de reais na final da Copa Libertadores 2013 e o Flamengo pretende igualar o valor ao majorar de forma significativa as entradas para a contenda da volta na Copa do Brasil atual Além disso, as audiências vão às alturas e toda uma cidade pode parar. Faz sentido, então, que o modelo do campeonato por pontos corridos seja questionado sempre que parecer desinteressante, como na eventualidade de uma conquista antecipada e suposta falta de ambição nos jogos restantes do torneio.

 

Férias forçadas

Nem tudo são flores em um campeonato com playoffs. As equipes incapazes de obter classificação na fase inicial sujeitar-se-iam ao encerramento precoce de suas atividades. Em 1999, a etapa classificatória encerrou-se em 10/11/1999. A derradeira partida ocorreu tão somente em 22/12/1999. Para Atlético-MG e Corinthians, finalistas, o campeonato foi ótimo. Mas para o Palmeiras, 10º colocado e ausente da zona de classificação, assim como para as 13 outras equipes que não avançaram à fase seguinte, isso significou que sua participação limitou-se ao período de 3 meses e 15 dias, 72% do período de disputa do time campeão.

Ainda que seja questionável a realização de qualquer tipo de planejamento por parte do alviverde paulista, as incertezas e a falta de regularidade existentes no Campeonato Brasileiro pré-2003 atrapalham o desenvolvimento de projeções de receitas e de despesas regulares ao longo da temporada. Hoje uma equipe sabe que disputará, pela principal competição do país, 38 partidas ao ano, podendo contar com os recursos advindos dessa fonte segura. Mais, saberá qual a profundidade do plantel é necessária para a disputa, sem comprometer os resultados desportivos. Um planejamento melhor significa gestão de equipe mais bem feita e também maiores chances de vender o produto futebol, com influência nas negociações de direito de TV, de patrocínio e nos programas de sócio-torcedor.

Um tema presente no panteão dos clichês dos defensores dos pontos corridos é a maior justiça nos campeonatos pós-2003. Ao não se depender de um único embate para decidir o futuro da competição, minimiza-se a possibilidade de zebras, premiando o trabalho estável e de longo prazo (ou não, como demonstrou o Flamengo, em 2009). Afinal, se é irrelevante falar em justiça em uma partida única, pode-se perceber que o pôjeto projeto bem feito tem reflexo no conjunto de resultados.

Outro chavão, também verdadeiro: com os pontos corridos, todo jogo é uma final. Ao se analisar que uma partida da primeira rodada tem o mesmo potencial de decisão que a contenda derradeira, inexiste aquela longa e indesejável fase de classificação, que nos últimos Campeonatos Paulistas, tomou conta de intermináveis 19 rodadas, o equivalente a um turno completo do Nacional. Como a classificação dessa etapa não influencia significativamente o restante da competição, os clubes têm grande incentivo em não disputarem boa parte das partidas de forma séria.

 

Para todos os gostos

Na opinião deste escriba, apenas a supervalorização do sentimento nostálgico e a simplificação dos argumentos podem tornar o retrocesso do atual formato de pontos corridos para o sistema de playoffs algo plausível.

Em primeiro lugar, subestima-se sobremaneira a possibilidade de emoções em um campeonato de pontos corridos, ao passo que se sobrevaloriza a comoção de um mata-mata. O Campeonato Brasileiro de 2009 chegou à última rodada com 4 equipes lutando pelo caneco, enquanto a edição de 2010 teve 3 candidatos até o fim. Mesmo nos casos em que o campeão é conhecido com antecedência, há outras contendas em jogo, que animam a competição. A briga por uma vaga na Copa Libertadores e a luta para escapar do Z4 não podem ser negligenciadas, embora seja possível reconhecer as inúmeras possibilidades de aperfeiçoamento das disputas intermediárias.

Em sequência, deve-se apreender que no atual modelo de competição, o conjunto dos clubes apresenta melhores condições de majorar suas receitas na tríade televisão-patrocinadores-torcedor. A disputa de mais partidas importantes aumenta o interesse dos stakeholders do futebol, fomentando, espera-se, a cultura de apoio ao time que não seja totalmente dependente dos resultados momentâneos. E esses ganhos são internalizados não apenas pelos finalistas, mas por todos os participantes, aumentando à medida que as equipes melhoram seus processos internos e sua capacidade de planejamento.

Por fim, é possível ressaltar que o torcedor brasileiro não está alijado da emoção de uma final. O Campeonato Brasileiro por pontos corridos coexiste com ampla gama de competições que utilizam os playoffs como método de disputa. Torna-se, assim, mais importante fortalecer e valorizar as competições em formato de mata-mata já existentes, como a Copa do Brasil, do que acabar com as formas alternativas de disputa. Em especial, aquela que, ao longo dos últimos 11 anos, tanto fortaleceu o futebol nacional: os pontos corridos.

 

Faça sua parte: cornete, comente, reclame ou inicie uma campanha por um campeonato mais organizado.

 

A imagem de capa é de Mauro Horita/AGIF/Folhapress, retirada do site da Veja, e reproduz uma emocionante entrega do troféu do nacional.

Comments

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  • Thiago C.

    Nada supera a emoção de uma partida realmente decisiva, aquele gol no último minuto, ou aquela virada improvável, histórica. Um ponto extremamente negativo dos pontos corridos é que o campeonato fica exageradamente longo. São 8 ou 9 meses de disputa, fica cansativo. Voltar para o mata-mata seria também uma maneira de reduzir o número de jogos disputados anualmente, atendendo assim aos anseios do tal movimento do “Bom Senso FC”.

    • Thiago Netz

      Caro Xará,
      Um dos argumentos texto é que é possível termos uma temporada de futebol com os benefícios dos pontos corridos e com a emoção de uma final (que nem sempre é tão emocionante: vamos lembrar da final do paulista de 2008), ao considerar a Copa do Brasil, os Estaduais, a Libertadores, a Sul Americana….
      Creio que o Bom Senso FC deixa claro que o formato do Campeonato Brasileiro não deve ser mudado. Que o excesso de jogos está na fase classificatória dos Estaduais. Outra vez com base no campeonato Paulista, a fase de classificação soma 19 rodadas, o mesmo de um turno do Brasileiro.
      Pessoalmente, acho que é possível diminuir o número de equipes para 18, mas a disputa em turno e returno é indispensável para a caracterizar a igualdade de condições. Além disso, como também foi tratado no texto, é importante manter todos os clubes em operação durante 10 meses.
      Obrigado pelo comentário!