Sobre patos, loucos e cavadinhas

Nesta quarta-feira, assim que Alexandre Pato, o fratello mano de R$40milhões, recuou a bola para Dida, as críticas à sua pessoa e os elogios à sua mãe vieram com intensidade inversamente proporcional a de seu chute.

De displicente a palhaço filha da puta mascarado sem vergonha, todos se sentiram no direito de achincalhar o ex-genro de Silvio Berlusconi. A avaliação era uma só: bater um pênalti decisivo daquela maneira é sinal de displicência, desrespeito à “instituição Corinthians” e à sua “fanática e fiel torcida”.

Voltemos pouco mais de três anos no tempo.

Quartas-de-final da Copa do Mundo. Uruguai e Gana decidem a vaga nas semifinais nos pênaltis, após um dos mais emocionantes finais de jogo da história do futebol mundial. Para os que não se recordam, no último lance do cotejo Asamoah Gyan desperdiçara o pênalti que garantiria o resultado histórico para a equipe Africana.

“El Loco” Abreu é o responsável pela última cobrança – um gol poderá selar um resultado histórico para a equipe Celeste, garantindo sua participação na semifinal do mundial, feito inédito desde México-70.

O então jogador do eterno cavalo paraguaio carioca alvinegro da estrela solitária bateu com a sua famosa cavadinha, artifício futebolístico criado por Panenka em 1976 e usado à exaustão pelo uruguaio de vasta cabeleira ao longo de sua carreira de nômade do futebol.

Os comentários que se seguiram ao feito de “El Loco” variaram entre constatações de que Abreu é um artilheiro “sangue-frio” e afirmações apaixonadas de que seu ato era marcado pela coragem que só os gênios da bola possuem.

Afinal, qual a diferença entre a cavadinha de Pato e o pênalti à la Panenka de Sebastián Abreu?

Muitos dirão que o chute de Pato foi um chute chocho, murcho, expressão máxima de seu desinteresse pelo esporte que é paixão de milhares, enquanto Abreu personificou em seu preciso chute a história de superação esportiva do menos populoso país a já levantar o troféu máximo do futebol mundial.

A verdade, no entanto, é que a diferença foi uma só: a bola de Abreu morreu no fundo das redes, enquanto a pelota do modelo jogador corintiano morreu abraçada nas mãos de Dida.

Não discuto as reações apaixonadas do torcedor, que eleva Abreu aos céus e rebaixa Pato ao inferno futebolístico. Para o torcedor, futebol tem que ser mais emoção do que razão e a bola na rede deve obrigatoriamente ser a diferença entre besta e bestial.

O que me espanta é a crônica esportiva comportar-se da mesma maneira. Objetivamente, se Loco Abreu deve ser aplaudido por sua ousadia e sangue frio, o mesmo tratamento deve ser dado a Alexandre, o Pato. Do mesmo modo, se Pato deve ser execrado pela sua cobrança, o mesmo deve valer para Abreu. Afinal, se o argumento usado diz respeito à grandeza do momento e à importância da cobrança, quem em sã consciência colocaria um penal em Copa do Mundo abaixo de uma disputa na Copa do Brasil?

Afinal, cavadinha é genialidade ou burrice?

Objetivamente não há como defender outra tese: a cavadinha será sempre uma estupidez sem tamanho, pouco importando o resultado final. Enquanto a outrora permitida paradinha era um artifício que colocava o cobrador em vantagem sobre o goleiro, a cavadinha estará sempre a favor do arqueiro. Qualquer cavadinha que morra no fundo do gol é por culpa única e exclusiva do goleiro, que se movimentou antes de a bola ser tocada pelo jogador adversário. Que toque de gênio é esse que depende, única e exclusivamente, do erro do goleiro adversário?

Embora as estatísticas já tenham demonstrado que o chute no terço superior da meta possui taxas de sucesso mais elevadas do que qualquer outra forma de cobrança a partir da marca da cal, a cavadinha foge à regra por ser a única que permite a recuperação do goleiro que tomou a decisão errada. Duvida? Reveja abaixo a cobrança à la Panenka de um dos maiores especialistas em perder pênaltis do Brasil:

O fato é que com a cobrança de Pato na última quarta-feira quase todos saíram perdendo. Perderam Pato, Corinthians, a torcida alvinegra e até mesmo (parte d)a crônica esportiva nacional, que voltou a dar provas de que o coração segue prevalecendo sobre a razão, mesmo que no exercício da profissão. Vitoriosos, somente Grêmio, gremistas e Dida. Este último vence ao não sair da meta apontando o dedo e vociferando em direção a Pato . Ao contrário de Jefferson e tantos outros, o calmo goleiro tricolor sabe que cavadinha não é sinal de desrespeito. É sinal de burrice.

 

A foto de capa é do de Daniel Augusto Jr e foi retirada do site oficial do Corinthians

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