Outra oportunidade perdida do futebol nacional

Desde o final do ano passado o caso Portuguesa no STJD ocupou grande espaço neste blog, tal como em quase qualquer sítio eletrônico especializado no esporte bretão. No primeiro texto publicado neste espaço sobre o tema, em 16 de dezembro de 2013, Thiago Netz apontava, ainda antes do famigerado julgamento, que esta talvez fosse uma excelente oportunidade para a CBF corrigir os claros equívocos na forma de organização e administração de suas competições, notadamente no que diz respeito ao sistema disciplinar, o STJD e seu modus operandi.

Naquela ocasião, clamou-se para que as entidades organizadoras primassem pela legitimidade das competições e para que os costumes e práticas dos tribunais desportivos fossem repensados.

A conclusão era clara e objetiva:

É chegado o momento de defender o campeonato mais que o interesse próprio. De instituir um tribunal sumário de penas, sem liminares ou efeitos suspensivos. De exigir um controle público e centralizado da situação de cada atleta, a ser conferido também pelos delegados e organizadores, antes de cada partida. De simplificar as regras, minimizando incoerências e colisões entre normas. De impedir propostas que aumentem a interferência extracampo na tabela das competições.

Desde então gravamos dois podcasts sobre o tema, sendo um extremamente esclarecedor, com a participação do Professor de Direito Desportivo Rodrigo Bayer, que ainda escreveu um post acerca do tópico (ainda hoje recordista de acessos ao site Segue o Jogo). Mais adiante, em janeiro deste ano, questionamos o papel dos jornalistas no imbróglio.

Por que fazemos toda esta revisão?

Porque neste sábado inicia-se o Campeonato Brasileiro 2014. Até poucas horas atrás a competição contaria com 21 clubes na Série A e 19 clubes na Série B, sendo que o vigésimo-primeiro clube da Série A não seria a Portuguesa, cuja briga judicial continua em andamento, frise-se, mas sim o Icasa-CE.

Se o caso Lusa (e Flamengo) já era capaz de demonstrar o estado de incerteza que a atual organização da competição é capaz de gerar, o caso da equipe cearense serve apenas para confirmar aquilo que já se sabia: o sistema é falho, sujeito a inúmeros erros, e a ausência de asteriscos nas classificações finais dos últimos campeonatos não é fruto da competência da CBF, mas sim do mero acaso.

O fato é que, independentemente da vitória judicial da CBF ante o Icasa nesta quinta-feira, haverá uma única certeza ao longo das 38 rodadas do Brasileirão: um erro administrativo pode ser descoberto a qualquer momento, e ninguém saberá se o resultado em campo será mantido ou não ao final da competição.

Afinal de contas, nada mudou na estrutura administrativa ou na organização da competição entre 2013 e 2014. O STJD é o mesmo, as suas práticas são as mesmas, e o controle público e centralizado sobre a situação de cada atleta seguirá não sendo utilizado como deveria pela CBF.

Talvez se a imprensa especializada tivesse focado menos nas pessoas e nos clubes envolvidos no caso Lusa e mais na necessidade de uma reforma na estrutura da competição e de seus organizadores, o resultado poderia ser diferente.

No entanto, a maior parte dos jornalistas esportivos optou pelo caminho mais fácil e brigou pela “pobre” Portuguesa contra o vilão incaível e poderoso das Laranjeiras, muito embora até hoje ninguém tenha muita certeza sobre o que ocorreu internamente no time do Canindé.

Cobrou-se da CBF, do STJD, e até mesmo do Poder Judiciário, que fizessem aquilo que não podiam: que rasgassem as leis e regulamentos da competição. No entanto, esqueceram-se de pressionar por aquilo que realmente poderia ter algum impacto positivo para o futebol brasileiro: que as regras fossem reformuladas e que as estruturas e práticas de órgãos como o STJD fossem repensadas.

Uma pena. Parece que mais uma oportunidade no futebol brasileiro foi perdida. Sendo esse o caso, que venham os asteriscos…

 

A foto de capa é de Paulo Sérgio Dantas / icasafc.com

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