Ode ao imobilismo

“O futebol tornou-se um negócio”. Esse lugar-comum aparece de quando em quando, normalmente envolto em ares de nostálgica consternação. As afirmações são múltiplas, mas todas parecem convergir para o mesmo argumento: os clubes teriam deixado de lado sua ligação intrínseca com a torcida para ver seus aficionados como simples consumidores e financiadores dessa bilionária indústria que pouco representa a origem.

De fato, a comunidade de Facebook “Não ao futebol moderno”, aparentemente a maior do gênero, ainda que em um ambiente bastante difuso, afirma:

“Antes, futebol era relação direta entre clubes e torcidas. Hoje, o clube depende financeiramente de patrocinadores, redes de TV, dirigentes, empresários, políticos, governo etc. Antes, era pura paixão. Hoje, puro negócio. ”

Em que pese a afirmação estar incorreta pelo menos desde o ano de 1933, data da profissionalização do futebol no país, há de se convir que o negócio do futebol mudou de patamar em recentes décadas. Os anos 1980 viram o início da importação de boleiros pela Europa em larga escala e, mais importante, tornaram patente a necessidade de inovações na gestão do clube para aumentar suas chances de êxito desportivo.

O Brasil e seus clubes podem ter perdido o bonde da história, mas outros lugares não. O Milan de Silvio Berlusconi e a criação da Premier League, no começo da década de 1990 demonstraram que a gestão esportiva entrava em novo patamar. Pouco depois, a Copa Europeia dava lugar à Champions League e o torneio tornar-se-ia a mais importante competição de clubes, suprimindo o espaço daqueles que pouco se preparam, no futebol continental da Europa. Não por acaso, times do porte de Estrela Vermelha, Steua Bucareste, Celtic ou Nottingham Forest não mais foram campeões continentais.

Já em terræ brasilis, as tentativas de profissionalização nos anos 1980 não geraram frutos além do fetiche por uma feia taça duradouros, como evidencia a saga de nomes, fórmulas e viradas de mesa nas décadas finais do século XX. O ponto baixo do descaso parece ter sido a Copa João Havelange, de 2000, tumultuada do início ao fim, e que demandou mudanças.

O século XXI tem sido um período de amplos avanços no futebol brasileiro, em que pesem os inúmeros problemas que persistem. A introdução da disputa por pontos corridos permitiu – e exigiu – uma maior organização por parte dos contendores. O fim do Clube dos 13, de igual maneira, restringiu a libertinagem financeira dos adiantamentos de verbas, ao passo que a negociação individual de direitos televisivos levou a um importante incremento de receitas a todos os envolvidos.

(Nota-se que: 1. A majoração das receitas foi acompanhada, no momento pré-Copa, por aumento ainda maior de despesas e de obrigações, com seus eventuais efeitos negativos. O momento atual, parece, é de ajustes; 2. Existem outros modelos de divisão de cotas de TV possíveis, mas é inegável o incremento de receitas com o modelo atual).

Estruturalmente, a Copa do Mundo de 2014 ensejou a construção ou reforma de estádios e de centros de treinamento, além de fomentar a operação de match day atualizada e mais racional do que o feito anteriormente. A proposta de normatização do tamanho e da qualidade de campos e de elementos relacionados visa a estabelecer um legado da Copa que deve ser implementado no país sede, para o avanço de seu futebol.

Ou seja: andamos muito, mas nos falta ainda mais caminho a percorrer para chegarmos a uma gestão moderna que assegure a sustentabilidade de longo prazo do futebol brasileiro, capaz de passar ao largo daqueles que propõem o retrocesso ou o imobilismo em nosso esporte.

Em recente post, o jornalista Flávio Gomes, vulgo Flavinho, mesmo aos que não o conhecem, critica aquilo que ele chama de neo-Futebol, usando de paradigma negativo o desenvolvimento do Sport Club Corinthians Paulista. Ao somar a nostalgia típica do movimento “Morte ao futebol moderno” ao espírito anti, logo após a conquista do Hexacampeonato alvinegro, vemos porque o texto passou a ser compartilhado a torto e a direito.

O belo texto apresenta argumentos (ver abaixo) sobre a suposta elitização do futebol brasileiro, bem como da domesticação dos torcedores, o que teria mudado o seu perfil e gerado uma dissonância entre os atuais frequentadores de aqueles que fizeram parte da história dos clubes. A identidade da torcida apresentar-se-ia, por essa versão, como um fato concreto e imutável, que estaria sendo tomada de assalto por um novo público, com padrões comportamentais bastante diferentes e não representativos do verdadeiro espírito do time.

A mesma discussão pode ser vista em outros sítios, ora bradando contra a atual precificação dos estádios, ora pedindo uma maior valorização da tradição face ao profissionalismo sem cheiro, gosto ou cor (ainda que o texto de Rodrigo Capelo peça por um equilíbrio entre as duas dimensões).

Há um grande perigo em usar o histórico da torcida brasileira como parâmetro de comparação ideal. Fomos, de modo geral, adeptos das grandes torcidas em jogos grandes e públicos diminutos quando o jogo não tem grande interesse. Nas palavras de PVC, “o que não pode mais é o clube ter o estádio vazio em 80% do ano só porque alguém quer decidir no domingo na hora do almoço se vai ao jogo às 5 da tarde.”

Para tanto, os esforços dos clubes justificam-se na valorização do produto futebol, como anunciado por Vinícius Paiva (em texto que questiona a existência de elitização do futebol nacional). É preciso atrair público em todas partidas, e nada como agregar conforto, facilidades e complementaridade ao espetáculo no gramado – e fora dele. Se o perfil do torcedor brasileiro está mudando, isso significa, para clubes como Corinthians e Palmeiras, que passamos a ter torcedores que comparecem a todas partidas do clube, não mais apenas na cobiçada final.

O futebol de bastidores organizado, celebrado em verso e prosa e desejado quando a falta de preparo dá as caras, deve ter paralelo no trato com a torcida. Mais conforto, diminuição das dificuldades e respeito a todos consumidores e espectadores deve ser o objetivo comum aos envolvidos nessa milionária indústria. E com isso seguem os requisitos de segurança, as ofertas de alimentação diversificada, as facilidades para compra de ingresso, os programas de sócio-torcedor, entre outros pontos tão atacados pelos que querem o imobilismo do desporto profissional.

Os novos tempos podem não agradar a todos, mas vieram para ficar e significam a melhora do futebol brasileiro.

A não ser que todos clubes queiram tornar-se uma nova Portuguesa.


Embora existam outras partes com as quais eu não concordo no texto de Flávio Gomes, tento, abaixo, rebater aquelas que são objetivamente incorretas. Já a opinião, cada um tem a sua…

Ronaldo jogou pouco tempo no Corinthians. Sua fama e tino empresarial, no entanto, ajudaram o clube a conseguir diversos patrocinadores de peso e elevaram o Corinthians a “case” de marketing, a ponto de seus torcedores terem de usar pulseirinhas de balada VIP para frequentar as cadeiras do Pacaembu. Os ingressos passaram a custar mais, bem mais, e a arquibancada clareou.

  • As tais pulseiras serviam apenas para diferenciar o público do setor VIP (um péssimo nome, claro) do setor de numerada, já que ambos tinham entrada e área de convivência conjunta, mas destinavam-se a assentos diferentes. Em nenhum outro setor do Paulo Machado de Carvalho isso era utilizado.
  • Há um processo de valorização do evento presencial em todos setores da sociedade, que leva ao aumento dos preços de ingressos em jogos, shows, peças, etc. Trata-se da básica relação Oferta x Demanda, ignorada pelo autor. Ainda assim, descontos (meia-entrada e programas de Sócio-Torcedor) e gratuidades fazem com que o preço médio do ingresso seja bastante inferior ao valor nominal, levando a um preço médio de R$30,00 a R$40,00 para o setor mais barato.
  • Hoje existem modelos de precificação setorizados (que estão ainda sendo calibrados) e o aumento de média e de ocupação ao longo do ano, e não apenas nas etapas decisivas, é sinal que diferentes setores da torcida estão sendo contemplados.

Há quem pregue a elitização definitiva, os ingressos caros, franquias, lugar cativo na primeira divisão para uma dúzia de clubes eleitos, cadeirinhas, público sentado, um modelo europeu ou norte-americano de ver esporte — ainda que, na Europa, vários países resistam a isso que chamo de “coxinhização” do futebol.

  • Não se trata de ser eleito para receber mais dinheiro, mas de remunerar a capacidade de gerar dinheiro.

Eu acho isso um porre. Acho que esse tipo de evento pode ser qualquer coisa, menos futebol. Ver o público que lota os lugares do Santiago Bernabeu ou do Camp Nou me dá azia. Futebol não é teatro. É uma experiência sensorial, é a coisa mais importante do mundo. Não dá pra ver sentado.

  • É um argumento de respeito, mas que mostra egoísmo atroz. Em primeiro lugar, a maior parte das pessoas assiste a todos os jogos em pé (especialmente setores Norte, Sul e Leste inferior), ao contrário do que acontecia no Pacaembu, no Setor Laranja. Mais que isso, é possível notar que muitos são prejudicados pelo comportamento, e eles compraram o mesmo ingresso que aquele que se recusa a sentar. Crianças, mulheres, pessoas de baixa estatura e idosos sofrem para enxergar a partida ficando em pé os 90 minutos (mais o trajeto de ida e o de volta). Não vejo qual a vantagem de alienar parte do público.

Hoje, quem tem menos de 30 anos e frequenta os estádios de São Paulo não sabe o que é empunhar uma bandeira, fazer calo no bambu, estender uma faixa no alambrado. Na Arena Corinthians, todas as faixas, exceto as das organizadas atrás de um dos gols, são “fake”. Elas são novinhas, lavadas e passadas, e colocadas no peitoril das tribunas por funcionários do clube. Dizem coisas como “Tu és religião” e “Bando de loucos”, “Festa na favela”, coisas que torcedor algum, de verdade, escreveria numa faixa. Funcionam como decoração do estádio. Desculpem, da arena. Clichês ridículos que não se aplicam mais ao que é o Corinthians. Favela, aquele estádio com gente que paga 500 reais para ficar perto do campo? Façam-me o favor…

  • Bandeiras com mastro foram proibidas por motivos de segurança, sendo estes justos ou não. Parece ser um exemplo de exagero do órgão policial.
  • Protestar pela volta de alambrados é ignorar as inúmeras tragédias causadas pela sua existência, da qual Hillsborough é a mais famosa, bem como o relatório Taylor.
  • Essas mesmas faixas são vendidas por ambulantes no caminho do Estádio, o que mostra aceitação por quem compra, além de ignorar o famoso grito “Aqui tem um bando de loucos…”.
  • Ignora a existência de diferentes setores, com precificação própria. Generaliza para formar um argumento inválido.

As pessoas tiram selfies, se olham no telão e convivem com esse ambiente artificial e pouco democrático — os ingressos são muito caros e é bem evidente a “troca de público” nos jogos do Corinthians, quando se olha para quem frequentava suas arquibancadas alguns anos atrás.

  • O argumento é prejudicado pela atual massificação dos aparelhos celulares, inexistente em passado recente. Não existe base de comparação para falar em troca de público.
  • Novamente a menção a ingressos caros, ainda que não corresponda à verdade absoluta

Ocorre que o que vi no Itaquerão naquele dia, em carne e osso, e o que vejo pela TV toda semana não me parece mais o Corinthians, aquele Corinthians do negão atravessando o campo de joelhos. Soube que há setores, inclusive, em que as pessoas gritam “senta” para quem quer ficar de pé. É o Corinthians dos neo-corintianos.

  • Isso acontecia com mais frequência no Pacaembu que na Arena Corinthians. E, como dito, pode ter seu quesito civilidade.

Há méritos, claro, em transformar tais facilidades em conquistas. Gente competente na comissão técnica, no grupo de atletas, no marketing, na administração — embora o Corinthians atrase salários e deixe de pagar impostos de vez em quando, como confessou o ex-presidente e atual deputado Andres Sanchez. Mais de cem anos depois de sua fundação, finalmente o Corinthians deixou de ser um clube bagunçado, risível, às vezes, para ingressar numa elite econômica à qual, no fundo, nunca pertenceu.

  • Certamente os torcedores estão mais felizes num momento de organização que na bagunça eterna mencionada acima.

Como a torcida do Santa Cruz, essa do vídeo aí embaixo. Duvido que ontem, no Itaquerão, houvesse alguém mais genuinamente feliz do que a gente coral que foi às ruas comemorar a volta do Santinha à Série A — sem estádio de mármore, sem telão, sem selfies, sem camarotes, sem pulseirinha VIP.

  • Cada clube com seu objetivo. Se não havia ninguém mais feliz, o oposto também é verdade. Ou ele argumenta que a torcida do Santinha estava mais feliz que a Corinthiana?

 

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A foto de capa é de Ivan Pacheco/Terra e foi retirada do sítio do Terra

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