O maior espetáculo da Terra – relato de Alemanha x Argentina

Para relembrar o tetracampeonato alemão, após um mês da final, segue o relato da ida ao grande jogo

Existem poucos eventos como uma final de Copa do Mundo. Ela é capaz de ultrapassar as 4 linhas do campo e as balizas da esfera desportiva, atraindo a atenção de uma porcentagem significativa da população mundial, incluindo aí aqueles que têm ojeriza ao esporte bretão nos demais 364 dias do ano (para não falar dos 3 anos sem o torneio).

Assistida por muitos, comentada por todos, a partida 64 da XXª Copa do Mundo ficará para a história. Não é preciso muito para que uma final seja relembrada em anos vindouros. Jogos fracos e chatos entraram para os anais do esporte, pelo único e exclusivo motivo de decidir a Taça Jules Rimet ou a Taça Copa do Mundo. Em anos recentes, aliás, essa tem sido a regra: Espanha x Holanda, em 2010, Itália x França, em 2006 e Brasil x Itália, em 1994 são exemplos de cotejos desinteressantes, além, claro, do maior exemplo de futebol mal jogado na derradeira partida: Alemanha Ocidental x Argentina, em 1990.

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É Copa, amigo

A terceira disputa final entre Alemanha e Argentina (além de 1990, os dois países decidiram o torneio de 1986) foi um jogo com potencial doloroso para a torcida brasileira. Por um lado, a Mannschaft, equipe que acabara de humilhar golear impiedosamente o escrete canarinho (embora muitos jurem que não fosse a piedade alemã, o placar seria ainda maior) e maior candidato a desbancar o Brasil como grande força do futebol mundial pelos anos vindouros. Do outro, a Albiceleste, maior rival nacional e cultura povo doce de leite país que amamos odiar e odiamos amar, únicos capazes de causar uma tragédia maior que o Maracanazo, o Sarriá e o novíssimo Minerazo, na hipótese de vitória em terra brasilis.

A decisão da Copa do Mundo no Brasil materializou-se, para mim, em doses homeopáticas. Começou quando fiquei sabendo da oportunidade de obter um ingresso. É vergonhoso admitir isso, mas ainda em período pré-Copa e sem a febre que tomou o país após o dia 12 de Junho, alguns fatores pesavam contra a empolgação. Preço do ingresso, custos de transporte e de hospedagem e a possível incompatibilidade de agenda eram óbices relevantes que, em CNTP, resfriariam o entusiasmo. Uma única frase, contudo, botou tudo sob a perspectiva correta: “É final de Copa” (Poderia ser também “É Copa, amigo“).

Veio, então, a confirmação do ingresso. O fim das Quartas-de-Final e a volta a São Paulo. As Semifinais. A semana da Final.

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Fan Fest

O trajeto entre a capital paulista e o Rio de Janeiro, na véspera do jogo, foi em meio à caravana de argentinos que tentavam acompanhar de perto a chance do primeiro título desde 1993. Mesmos aqueles acostumados com a peregrinação anual dos Hermanos ao litoral catarinense estranhavam a invasão portenha a cada parada e a cada posto de pedágio. Se, durante o verão, os objetivos dos turistas são difusos, confundindo-se com os turistas brasileiros, no curto período entre o dia 9 de Julho e o dia 13 todos tinham um fito comum e específico. Torcer para a seleção, no estádio, na Fan Fest, nos bares, na praia, não importa onde, era uma ordem dada e cumprida por milhares de argentinos. Não chegou a repetir 1976, mas a impressão é que foi por muito pouco.

No dia 12, o clima da cidade carioca era perigoso efervecente heterogêneo. Contrastavam o ânimo contido dos torcedores alemães, a paixão vocalizada dos sul-americanos e a ressaca ressentida dos brasileiros, aumeIMG-20140713-WA0027ntada após a derrota contra a Laranja Mecânica. Em meio a esses grupos facilmente identificáveis, inúmeros torcedores neutros (na medida do possível) completavam o ambiente do Rio de Janeiro. A ida foi bastante simples, muito devido ao acesso fácil que tive ao limitado metrô local, mas também graças à gratuidade a portadores de ingressos. Com a estação ideal identificada para cada portão de acesso e sinalização eficiente, a saída do metro Maracanã também não teve dificuldades além da aglomeração para passar pelos diversos pontos de verificação de ingresso montados pela polícia fluminense.

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Jornalista Mário Filho, modo evento

O Estádio do Maracanã estava montado para a festa. A adesivação exclusiva para final, com The Final espalhado por todos os lados do Mário Filho mostrava que a partida seria diferente. O campo de jogo, preparado para a festa de encerramento, reafirmava isso. As filas para as concessões e para os volantes, também. Movidas não pela sede nem pela rara oportunidade de beber álcool dentro de uma arena, as massas aglomeravam-se atrás de algum vendedor com os copos estilizados – que começaram a faltar pouco após a abertura dos portões, pulando de fila em fila quando era dada a notícia de esgotamento do já esquecido souvenir da Copa. Era comum o ver pessoas carregando pilhas de copos que, se adquiridas de modo normal, custariam algo perto de um novo ingresso. Para muitos, como lembrado pelo IMPEDIMENTO, obter, estocar e carregar os COPOS consistiram na maior das preocupações durante todo o evento.

Atrás de um dos gols (próximo ao meu assento, no lado sul), a maior concentração da torcida Sul-Americana fazia sua festa característica, replicada em diversos pontos do estádio. Perto do arco oposto (lado norte), eram os europeus que cantavam e vibravam, ainda que em menor número. Para a insatisfação portenha, porém, foi na meta próxima a sua grande massa que Götze consagrou-se, embora eu desconfie que a tristeza independeu do lado do gol.

Entre a bela cerimônia de encerramento e a entrega da taça, tivemos 120 minutoIMG-20140713-WA0066s (aqui e aqui) de provocações, tanto as saudáveis e divertidas como as exageradas; grande futebol; muita aplicação tática e exaustão física; alguns gols perdidos (Higuaín e Palácio) e polêmicas (choque entre Neuer e Higuaín e gol impedido da Argentina). Tivemos, também, coisas para se lamentar, como as brigas entre torcedores, a invasão ao campo, as vaias durante os hinos e a premiação (direcionadas aos argentinos e à Presidenta do Brasil), além de não-vaias que seriam merecidas para quem comanda o futebol nacional.

Exultantes, tristes ou aliviados, o contraste que existia entre os grupos de torcedores antes da partida era novamente percebido após o apito final. Preparavam-se todos para deixar o estádio, para deixar o evento e retomar suas vidas, após semanas de muita intensidade. Para uns, isso significava planejar o longo caminho até seu carro seu trailer seu banco de praça sua casa, enquanto outros desejavam um merecido descanso após tanto esforço. Para a maioria, contudo, bastava descobrir   como aproveitar as últimas horas da Copa do Mundo no país e poder repetir “parabéns, Alemanha”, “obrigado, Brasil” e “nos vemos na Rússia”.

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Congratulations Germany

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Obrigado Brasil

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See you in Russia

 

 

 

 

 

 

 

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A foto da capa é de Pedro Ivo Almeida,da UOL

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