A novela Lusa e o papel dos jornalistas

Parece cada vez mais claro que o destino do triângulo amoroso Félix-Niko-Eron em “Amor à Vida” será definido antes que o destino do triângulo boleiro Lusa-CBF-Fluminense, na mais arrastada novela do futebol brasileiro dos últimos anos.

No mais recente capítulo deste interminável embate jurídico-futebolístico, a Portuguesa solicitou um adiantamento de sua cota de TV referente ao ano de 2014 para a CBF. A CBF, por sua vez, aceitou fazer o adiantamento de R$ 4.000.000,00, com a condição de que o clube paulistano aceitasse jogar a Série B em 2014, desistindo de eventuais recursos obtidos junto à Justiça Comum ou a outras instâncias desportivas, seja pelo próprio clube, seja por seus torcedores ou associados.

A proposta de acordo feita pela Confederação é natural e dentro do que se espera de uma entidade que vê ameaçada suas possibilidades de efetivamente organizar o Brasileirão 2014.

No mundo “real”, propostas de acordos como essa não causam espanto, nem são chamadas de chantagem, suborno, ou consideradas capazes de abalar as estruturas do mercado em que estão inseridas as partes. Um simples passeio aos fóruns brasileiros revelaria que acordos não só são feitos, como são incentivados pelo nosso judiciário, e muitas vezes envolvem concessões das partes envolvidas e longos processos de negociação.

No caso Lusa, no entanto, como tudo que envolve essa novela, posições ponderadas parecem proibidas e apontar o dedo acusatório para qualquer uma das partes parece ser entendido como a solução definitiva dos problemas. A sensação que temos, após quase dois meses do início dessa novela, é que as pessoas se apaixonaram de tal forma às suas opiniões, que parecem cada vez mais incapazes de revê-las e de lembrarem-se da real dimensão do problema ora enfrentado pelo futebol brasileiro.

Quando do início do imbróglio, todos pareciam ter em mente que, independente do resultado do julgamento no STJD, o sistema era falho e precisaria ser reformado. Hoje, no entanto, ao invés de focar-se na cobrança de uma reforma do sistema que impeça que casos como este voltem a se repetir, o destino da Lusa em 2014 parece ser a única coisa que importa. Ignora-se que, ao contrário do que alguns tentam nos fazer crer, no direito não há uma resposta única certa, e que o fato de a posição que absolve a Portuguesa com base no Estatuto do Torcedor ou no princípio pro competitione ser defensável, não torna a posição contrária adotada pelo STJD definitivamente errada.

O fato é que estas últimas semanas mostraram o quanto que, sob o pretexto da racionalidade, cada parte envolvida pareceu se esquecer de seu papel no futebol nacional e o quanto isso pode ser prejudicial ao debate esportivo.

Defender uma única posição como correta e desconsiderar qualquer tentativa de desconstruí-la deve ser papel exclusivo dos advogados que defendem as partes envolvidas. Aos jornalistas caberia entender, analisar e explicar a complexidade do mundo, e não insinuar ou afirmar que há uma única posição correta. Ao torcedor, cabe torcer pela sua equipe, sem ter vergonha em afirmar que sua posição não é racional, não é jurídica, é simplesmente correta por ser construída sobre o amor incondicional pelo seu clube.

Por fim, aos blogueiros, como o autor deste texto, cabe definir o papel dos outros atores sociais, enquanto ao leitor cabe o papel de compreender a ironia da última frase.

 

Concorda com a análise? Comente, discorde, cornete, ou peça o adiantamento do décimo terceiro ao seu patrão!

A foto da capa é de Pedro Curi/TV Globo.

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