Mundial de verdade

Não basta atravessar o mundo, é preciso enfrentá-lo

 

A esperada surpreendente derrota do Atlético-MG para o Raja Casablanca, com requintes avançados de crueldade, foi bem recebida por um grupo amplo de pessoas. Em primeiro lugar, como não poderia deixar de ser, foi comemorada por cruzeirenses, que chegaram a propor a alteração do nome de uma rua de Belo Horizonte. Depois, nos lados do Internacional de Porto Alegre, a partida veio como um alívio, na esperança que os feitos atleticanos transformem Kidiaba e sua trupe em opacas figuras de um passado esquecido. Para jogadores como o famoso Dedé, o promissor Marquinhos e o incompreensível Henrique, significou uma renovação da esperança de participação na Copa do Mundo, considerando a péssima desastrosa horrível controversa atuação de Réver. Contudo, ninguém ficou mais animado que a FIFA, ao ver dar resultados, de uma vez por todas, a democracia em seu torneio de clubes.

A final da Copa do Mundo de Clubes da FIFA de 2013 foi a segunda que contou com times de fora da Europa ou da América do Sul, sendo vencida com facilidade pelo Bayer de Munique. Em 2010, a Inter de Milão derrotou o congolês Mazembe, que havia superado o Internacional gaúcho na etapa anterior. Não foram as únicas surpresas históricas. Em 2000, na edição inicial, o Manchester United teve campanha sofrível, com empate contra o Necaxa, derrota para o Vasco da Gama e vitória apenas contra o South Melbourne, Terminou em terceiro lugar do grupo, excluído até da disputa de terceiro e quarto lugar. Esta, por sua vez, viu a equipe mexicana desbancar o Real Madrid, nos pênaltis, para completar as surpresas da competição. Antes, porém, nada disso seria possível.

O torneio de 2000 não significou a primeira tentativa de criação de uma disputa entre equipes de diferentes cantos do planeta. Realizado em 1909 e 1911, o Troféu Sir Thomas Lipton é considerado o primeiro esforço por um torneio entre as melhores equipes do mundo, limitado, porém, a times da Itália, Alemanha, Suíça e Inglaterra. Nos anos 1950 e 1960, torneios sul-americanos como a Taça Rio (sucedido pelo Torneio Octogonal Rivadavia Corrêa Meyer, em 1953) e a Pequena Copa do Mundo foram criados para tentar definir, em disputa entre convidados locais e europeus, o clube que poderia reivindicar o título de campeão mundial. Contudo, assim como com sua contraparte europeia, o Torneio de Paris, nenhuma dessas disputas mereceu consideração diferente de contenda amistosa, sendo constantemente rechaçados os esforços, à época ou atualmente, por fax ou não, de reconhecimento por parte da FIFA.

Decisão do Comitê Executivo da FIFA, em 15 de Dezembro de 2007, torna explícito a valor da universalidade para que um torneio seja considerado, de fato, mundial:

With respect to the history of the FIFA Club World Cup and intercontinental club competitions in years gone by, such as the Copa Rio in the 1950s, the FIFA Executive Committee endorsed the view that the first edition of this competition was held in 2000 in Brazil where Corinthians became the very first FIFA club world champions. Other tournaments are not considered official FIFA events.

Valor este presente em todas competições reconhecidas pela FIFA desde seus primórdios, como a Copa do Mundo, que esteve aberta a todos países filiados já em 1930.

Intercontinentais

A entidade fala de “competições intercontinentais de clubes”, pois, ao contrário do senso comum, a Copa Toyota Copa Intercontinental não foi a única em seu gênero. Usando a partida entre europeus e sul-americanos como modelo, houve, nos anos 1980 e 1990, o Campeonato Afro-Asiático de Clubes, que juntou os campeões locais. Torneio semelhante foi a Copa Interamericana, disputada de forma errática entre 1968 e 1998 entre representantes da CONMEBOL e da CONCACAF. Mesmo irrelevante sem contar com prestígio em tempos recentes, a competição serviu para que o América do México pleiteasse participação na Copa Intercontinental, após vencer o Boca Juniors, em 1977.

Inexiste dúvida que a disputa entre os campeões da Libertadores da América e da Copa dos Campeões da Europa foi, ao longo da segunda metade do século XX, o mais prestigioso dos torneios intercontinentais. Seja em seu formato original, em ida e volta, seja na configuração moderna, disputada após 1980, em jogo único, no Japão, ela normalmente reunia os clubes vencedores das duas confederações teoricamente mais poderosas do mundo, acarretando partidas de alta qualidade técnica disputa e muitas controvérsias.

Não raras vezes a Europa não se viu representada pelo campeão do continente. Isso aconteceu em 1971, 1973, 1974, 1977, 1979 e 1993. Já em 1975 e em 1978 ele não foi realizado, enquanto a edição de 1973 foi, à semelhança da final da Copa Sul-Americana de 2012, disputada pela metade. Acusações de doping, de violência e de falta de viabilidade econômica feitas pelos europeus em relação às partidas na América do Sul foram as responsáveis pelo declínio de importância do torneio, fato dirimido apenas com a remodelagem promovida pela Toyota, em 1980.

Mesmo com sua maior importância relativa, a Copa Intercontinental não satisfez os critérios demandados pela FIFA. Tanto ao criticar o Real Madrid por atribuir-se a alcunha de campeão mundial, em 1960, quanto ao rejeitar os pedidos por reconhecimento (que visavam a minimizar a violência das equipes sul-americanas, ao sujeitar a disputa às regras e punições oficiais), a Federação Internacional reforçou a exigência de participação das demais confederações para que a organizasse e para que atribuísse aspecto oficial.

Essa é a base para a realização da Copa do Mundo de Clubes da FIFA. Ideia surgida em 1993, o torneio foi realizado em Janeiro de 2000 e retomada em Dezembro de 2005, data na qual a Copa Intercontinental deixou de ser disputada. Em seu formato atual, o campeão de cada torneio continental junta-se ao representante do país sede em uma disputa eliminatória, com entrada gradual de cada representante. Os que disputam por meio da UEFA e da CONMEBOL iniciam a competição já na semifinal, enquanto os representantes da CAF, da AFC e da CONCACAF jogam as quartas de final. O representante do país sede e o campeão da Oceania enfrentam-se em um playoff anterior.

A Copa do Mundo de Clubes não está isenta de problemas. Além da desigualdade de condições entre seus participantes, já que a escolha de qualificação para determinada fase é arbitrária, outros fatores servem para diminuir a atratividade da competição. A falta de interesse dos clubes europeus em meio de temporada, o sistema de disputa, a baixa qualidade técnica de alguns participantes e, principalmente, o desequilíbrio entre as equipes da Europa e as demais, incluindo os sul-americanos, suscitam questionamentos quanto ao futuro do torneio.

É preciso encontrar uma maneira de agregar qualidade à disputa, sem desrespeitar a representatividade mundial nem criar datas excessivas para disputa. Como comparação, o campeão Bayern precisou de 2 partidas para conquistar o título, enquanto na edição de 2000, o Corinthians teve 4 jogos antes de conquistar o troféu. Essa diferença é capaz de causar calafrios nas equipes da UEFA, que, afinal, priorizam e sempre priorizaram seus campeonatos nacionais e continentais.

A UEFA Champions League como torneio mundial

Não é para menos, ao se analisar a força desses torneios. A Champions League concorre com a Copa do Mundo como competição de futebol mais qualificada tecnicamente, com equipes cujo poderio econômico as permite agrupar verdadeiras seleções multinacionais. Desta forma, é possível argumentar que, em um campeonato com número maior de representantes de cada confederação, as melhores equipes seriam, quase invariavelmente, aquelas do velho continente.

A relutância em arriscar a aura de superioridade europeia em um ou dois jogos é um dos grandes óbices à popularização do torneio mundial. De forma semelhante à empáfia inglesa nas Copas do Mundo anteriores à de 1950, data da primeira participação da Pérfida Álbion e que terminou como um grande fiasco dos inventores do esporte, nada impede que os europeus passem a considerar, utilizando a mesma explicação repetida pelos defensores da Copa Intercontinental como torneio mundial, que a verdadeira disputa e os rivais de nível elevado estão circunscritos à Champions League, sagrando, mesmo que de facto, o vencedor desta como campeão do mundo.

Quem quiser que compre essa ideia. E a da Copa Toyota. Eu, pessoalmente, prefiro chamar de mundial um torneio aberto a clubes de todos continentes.

Concorda com a análise? Comente, discorde, cornete, xingue ou divida o valor do carro prêmio com seus companheiros.

 

Foto da capa retirada do site UOL, com créditos para REUTERS/Fadi Al-Assaad

Comments

comments

  • Acho certo chamar de mundial somente aquilo que é aberto a equipes de todos os continentes. Só é importante não confundir isso com o nível técnico ou a importância da competição. Chame de mundial este campeonato da FIFA e considere-se o segundo melhor time mundo por consgeuir bater um Al Ittihad ou um Atlético Mineiro da vida. Só não espere que eu considere isso (ou ganhar do Chelsea em jogo único ou não) mais importante do que ganhar o Brasileiro, por exemplo.

    Não só a Champions League é maior que o mundial, como também o é a Libertadores. E, frise-se, o Brasileiro é também maior que a Libertadores. A única importância destes mudiais, oficiais, oficiosos ou extra-oficiais, é servir como divã do futebol brasileiro, permitindo que a seleção canarinho viesse a se tornar penta-campeã mundial. Em outras palavras, exceto a Copa Rio de 1951, o resto é tudo Maria Quitéria, Ramon de Carranza, Euro-América ou Parmalat, com mais ou menos grife.

    P.S.: Copa do Mundo sem possibilidade de classificação de equipe da Oceania é Mundial, Netz?

    • Thiago Netz

      Pois é, ninguém disse que o objetivo do mundial é decidir qual é o melhor time do mundo. Se às vezes nem o campeão da Champions League ou da Libertadores é o melhor time local,o que dizer de um torneio semi-amistoso de uma ou duas partidas? Pior ainda um amistoso completo, como a Copa Rio, que não conseguiu nem seguir os passos do Tereza Herrera.

      Mais importância ao Brasileiro e mais importância à Libertadores, quando ela for modificada e deixar de ser a várzea que é hoje.

      Sobre a Oceania, a Copa do Mundo da FIFA esteve sempre aberta a todos os membros da FIFA e das Confederações existentes. A OFC surgiu nos anos 1960, e nem Austrália ou Fiji eram membros da FIFA até então. A Nova Zelândia entrou em 1948. Desde 1966 eles participam das eliminatórias e não consta que tenham sido impedidos de participar antes disso. Provavelmente não quiseram ou não acharam viável.

  • Guilherme Suspenso

    Desde que não tenha representante do país-sede tudo é válido.

    • Thiago Netz

      abaixo a Copa do Mundo! Abaixo os mundiais de clube de 2000, 2007, 2008, 2009, 2010, 2011, 2012, 2013…