A Minha Camisa 10 (Noite de Estréia)

O uniforme dela para a grande estreia já estava garantido, restava comprar o ingresso. Encarei uma manhã de garoa na Rua Palestra Italia para garantir o ingresso da pequena, nada que alguém tomado pela alegria de pai não faça com muita alegria.
A alegria estampada no rosto dela com a sua camisa 10 com seu nome às costas era contagiante, o que a princípio era para ser um vestido acabou sendo quase isto mesmo, pois o pai aqui sempre chuta para mais na compra de roupas, desde quando ela era um bebê.
Com toda a parcialidade do mundo, ela estava autorizada por mim a faltar na escola, tudo para que pudéssemos chegar cedo, fugir do horário de pico nos finais de tarde na Pompéia/Perdizes e fazer o tradicional “pré jogo” nos arredores do estádio, dessa vez não com cerveja e lanche de pernil com os velhos amigos, mas sim na praça de alimentação do shopping ao lado do estádio, com hambúrguer, refrigerante e batata frita, claro. E assim foi, com direito a aventura dela esquecer a toca na praça de alimentação e conhecermos depois o “achados e perdidos” do shopping.
Antes disso tudo, ao chegarmos nos arredores do Allianz Parque ela disse “pai, vi um moço com uma camisa do Palmeiras igual a minha” e eu disse “Filha, você verá mais de 20 mil hoje e por algumas horas serão todos nossos amigos também, pois é assim que eles nos tratam lá dentro!”
E lá estávamos vestidos com nossas camisas mais importantes, ela com bandeira na mão e eu com ela nos ombros, no tradicional “cavalinho” que me fez sentir como se estivesse carregando o troféu mais importante do clube, desfilando pela rua do estádio ao sair do shopping em direção a nossa segunda casa, em meio a todos aqueles grandes amigos que nem conhecemos e nem sabemos os nomes.
Hora de entrar no estádio, ingressos em mãos e documentos, a ansiedade da primeira vez dela me remetendo a infância e no coração a sensação de conquista. Ingressos entregues e estávamos dentro do hall do estádio e ela admirava tudo em volta como se o olhar dissesse “Então é assim aqui dentro? Que legal, mal imaginava que era assim quando passava em frente várias vezes com meu pai de carro”. De repente dois funcionários do clube se aproximam da gente e se dirigem a palavra:
– Oi amigo, se ela estivesse com uma calça ou bermuda branca, além da camisa do Palmeiras, ela poderia entrar em campo hoje com o time!
Fiquei lisonjeado pelo convite e mesmo não sendo possível ela ter essa experiência, agradeci dizendo:
– Muito obrigado, bom saber! É a primeira vez dela no estádio, mas na próxima vez procuro por vocês caso ela queira.
O funcionário do clube ficou feliz ao saber da estreia dela em estádios e desejou bom jogo a ela e, ao perguntar o nome dela, ela se virou e mostrou orgulhosa seu nome às costas na camisa, arrancando sorrisos e desejos de bom jogo e que ela fosse pé quente sempre.
Subindo as escadas rolantes que nos levariam a nosso lugar no estádio, eu disse a ela:
– Viu que legal, filha? Você sabia que quando eu era criança, eu tinha o sonho de entrar em campo com os jogadores? Mas na minha época de criança eram poucos os que podiam.
Foi quando ela olhou para mim, acariciando meu braço e disse:
– Pai, eu vou realizar seu sonho! Pode deixar comigo, só preciso de uma calça ou uma bermuda branca.
De repente os 90 minutos que viriam se tornaram secundários, foi quando que tomado por um nó na garganta e pela felicidade daquele momento único de pai e filha, mais do que nunca me fez sentido a frase “Não é só futebol”.
O jogo? Palmeiras 3×0 Botafogo. Gols apenas no 2º tempo, com direito a primeira cornetagem (Pai, não sei porque treinam tanto se não querem fazer gol), susto no primeiro gol e festa no segundo e terceiros gols. No caminho de volta, antes dela pegar no sono no curto trajeto de carro até o Bairro do Limão, ela disse “comecei bem né, pai? Fui pé quente”.
Não só pé quente, filha! Obrigado.
E assim foi a estreia da pequena Luana, 5 anos, no estádio do nosso time em meio a amigos que não conhecemos.

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André Galvão (Dehco)

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