Memórias de Chapecó

Na noite de 27 de janeiro de 2010 tive o prazer de assistir uma partida de futebol na Arena Índio Condá. Horas antes, no intervalo de almoço do trabalho que me levou até Chapecó, consegui comprar o belo manto verde, que embora repleto de patrocínios por todos os lados, sempre foi um dos xodós de minha pequena coleção de camisas de futebol.

Lembro bem a alegria do colega de trabalho, ao descobrir que o paulistano da sede da empresa queria passar a noite da quarta-feira nas arquibancadas do recém renovado estádio da cidade. Estádio que, nas suas palavras, era digno da Major League Baseball, com seus escritórios sob as arquibancadas e espaço para exploração comercial. A falta de visibilidade da linha de fundo era detalhe de menor importância, devidamente compensada pela alegria e paixão da torcida local.

Naquele momento, as glórias futebolísticas da equipe não eram tão impressionantes. Mauro Ovelha era o técnico, Badé era o craque que havia partido e Rafael Morisco a promessa que voltava de sua temporada sem sucesso no Vasco. O jogo contra o Juventus, vencido pela equipe da casa por 2 a 1, não foi de grande qualidade técnica. Mas quem se importava? A experiência de compartilhar aquela arquibancada com o simpático povo de Chapecó era o que bastava para colocar o Verdão do Oeste em um lugar especial em meu coração.

Não podia imaginar que dali três anos veria Chapecoense e Palmeiras brigando cabeça a cabeça pela liderança da mesma competição nacional. Se houve algo de positivo na experiência na Série B de 2013 para a torcida palmeirense, foi a oportunidade de conhecer de perto, um ano antes que o resto do Brasil, a linda história de outro verdão, dessa vez capitaneado pelo artilheiro Bruno Rangel.

A história a partir de 2014 é de conhecimento de todos. A Chapecoense fincou seu pé na elite nacional e aos poucos conquistou a simpatia e o carinho de torcedores ao redor de todo o país. Gremistas, que já compunham grande parte da torcida da equipe, simpatizaram ainda mais após a primeira goleada da equipe na Série A em 2014. Duvido que Colorados, também presentes em grande número na torcida no oeste catarinense, tenham torcido o nariz para o Verdão, mesmo após aquele famoso jogo. A Chapecoense tem uma característica rara, que faz com que seja quase impossível detestá-la. Que o diga a torcida do Palmeiras, a segunda vítima de goleadas no Índio Condá…

Se ainda assim houvesse alguém capaz de torcer o nariz para a Chapecoense, as campanhas na Sul-Americana de 2015 e 2016 certamente os fez mudar de opinião. Não era nem preciso gostar de futebol para se encantar com o que faziam em campo os comandados de Caior Jr. Pela primeira vez a expressão “Tal time é o Brasil na Libertadores” não era pachequismo ou ação de marketing. De fato, o Brasil todo torcia para o sucesso dos catarinenses.

Antes de embarcarem para a partida mais importante da história dessa jovem agremiação, quiseram os deuses do futebol colocar Palmeiras e Chapecoense frente a frente uma vez mais. A Chapecoense de Caio Jr., técnico querido e de bom trabalho no Palmeiras em 2007. A Chapecoense de Ananias, autor do primeiro gol da história do Allianz Parque. A Chapecoense presenciou, em local privilegiado, uma linda festa, de uma torcida apaixonada e de um time com vontade de vencer. Uma festa que certamente inspirou muitos daqueles que na quarta-feira teriam a chance de dar alegria semelhante para os seus torcedores.

Mas veio um acidente. Uma tragédia. Um fato que interrompe de maneira violenta uma das mais belas histórias do futebol brasileiro e que, junto, leva a vida de jogadores, técnicos, jornalistas, pais, filhos, irmãos… enfim, seres humanos.

Não há como descrever a sensação de vazio, incredulidade e inconformismo que pessoas e torcedores ao redor de todo mundo sentem neste momento. Não há palavras de conforto neste momento que sejam capazes de aplacar a dor que tantos sentem. Que o futebol que, indiretamente, abreviou a vida destas 72 pessoas, também seja capaz de mantê-las vivas em nossas memórias. Que o momento abaixo, jamais seja esquecido…

Comments

comments