Marcha da Insensatez

Como a polêmica dos erros de arbitragem prejudicam o futebol brasileiro – e não dentro do campo.

Futebol é bastante previsível. Rodada vem, rodada vai, quarta e domingo se repetem ao longo do ano, formando os campeonatos que serão recomeçados no ano seguinte. Estadual, Libertadores, Brasileiro e Copa do Brasil, vitórias, empates e derrotas se sucedem, algo tão certo quanto a existência de reclamações da torcida e de jogadores no pós-jogo.

Os novos tempos remetem ao recrudescimento das análises de arbitragem. Se antes eram manifestações patéticas folclóricas ou esforços verdadeiros para desmontar mitos do apito, temos hoje um arsenal de ferramentas para, em tese, aproximar o futebol da utópica verdade. Imagens manipuladas em computador, múltiplas câmeras com ângulos diversos e acesso instantâneo a replays em Danilo-motion ultra-slow-motion: hoje se vê melhor o jogo do sofá de casa que do meio do gramado.

O atual papel da previsibilidade acontece pelas expectativas recorrentes pelo quadro de discussão das polêmicas da rodada, presentes nos diferentes canais esportivos. Todos munidos de ex-apitadores ruins a seu tempo e seu conjunto de ferramentas gráficas, chamadas de capa e todo tempo disponível do mundo para interpretar um lance. De positivo, tornaram a presença do consultor de arbitragem em partidas individuais um luxo pouco recorrente.

Isso talvez sirva de evidência da necessidade de implementação de auxílio tecnológico à arbitragem ou de reforço ao imperativo de profissionalização do apito. A modernidade, porém, tem causado problemas àqueles que se dizem especialistas e profissionais – não do jogo – da análise.

Na outrora respeitada ESPN, terra dos paladinos Mauro Cezar Pereira e Arnaldo FAVORITAÇO Ribeiro, que abertamente defendem o desrespeito às regras do futebol, a discussão acerca dos erros de arbitragem tem virado a principal pauta de programação. O atleticano sensato Léo Bertozzi exaltou-se após a 19ª rodada, quando o Galo perdeu a liderança. Já Gustavo Hofman esperou até a 22ª rodada para afirmar que o campeonato está, de forma inapelável, manchado por erros de arbitragem.

Em que pese a análise técnica do consultor de arbitragem da ESPN, Sálvio Spíndola, mostrando que o verdadeiro prejudicado nos lances capitais, no embate entre Atléticos, no dia 02/09, foi o Furacão, a emissora manteve a linha editorial os comentaristas mantiveram a opinião: Corinthians, o beneficiado; Galo, o prejudicado.

Convidado pela emissora, Alexandre Kalil, ex-presidente do Galo, utilizou de seu estilo boquirroto para atacar reiteradamente o árbitro, o técnico corinthiano e a Confederação Brasileira de Futebol. Disse, por fim, que os erros da partida poderiam causar um final desastroso. Assim como Hofman, Kalil errou no diagnóstico, mas acertou no prognóstico.

A grande tragédia que aflige o futebol não está dentro das 4 linhas. Se falam que o brasileiro tem curta memória, os jornalistas pátrios não ficam atrás. Desmemorizados e seletivos, tratam o movimento atual de descrédito da arbitragem como algo inédito e não como algo recorrente, alimentado, muitas vezes, por seus próprios comentários. A verdadeira tragédia está, portanto, no modus operandi da imprensa.

Em exame desse comportamento, a Trivela criticou a recente escalada de tom ocorrida na mídia setorizada. Passam horas debatendo a existência de esquemas e a influência de supostos erros no BR-15, utilizando chamadas nada inocentes, como: “O Corinthians está na liderança apenas por causa do apito” ou “Tá na boca do povo! Entrega a taça para o Corinthians!”. Alienam, assim, o interessado na discussão do futebol propriamente dito, ao passo que alimentam os trolls do futebol brasileiro, que em nada contribuem ao desenvolvimento do esporte bretão.

Torcedores, dirigentes e jogadores entram no círculo vicioso da hipocrisia, como argumentou Antero Greco. Jornalistas e comentaristas, dando luz à tragédia anunciada do futebol brasileiro, também. Repetem reclamações sem se ater aos fatos ou deixando que a memória afetiva tome conta. Almir Pernambuquinho, Esquema Parmalat, Esquema MSI e Caso Madonna tornam-se verdadeiros, irrefutáveis. Saem das mesas de bar e dos grupos de whatsapp, ganhando espaço nobre, gerando clicks, hits, audiência e elogios.

Mas perdemos todos. E o futebol perde ainda mais:

Perde a perspectiva do jogo, que passa despercebido em meio ao ruído das críticas à arbitragem, o que é condizente com o baixo nível de conhecimento dos stakeholders do futebol.

Perde a chance de aprimoramento, ao serem ignorados os acertos e o significado de polêmica e das diferentes interpretações possíveis. Ao invés de encontrar compreensão, casos de difícil análise tornam-se evidência de manipulação, sendo equiparados às ocorrências de evidente equívoco do trio quarteto quinteto de arbitragem, consequências das fragilidades do sistema atual. No limite da sanidade, acertos de marcação ensejam críticas ainda mais ferozes ao desempenho do apito.

Perde a chance de união entre os clubes, com os lados digladiando-se e acusando-se mutuamente, em uma muleta para o baixo desempenho e para a incompetência.

Abdicamos de realizar uma análise técnica e construtiva dos lances duvidosos, selecionando fatos ao discurso de interesse do momento, até que a rodada seguinte crie um novo episódio e que gere uma nova discussão sem pé, sem cabeça e sem fim.

Realmente previsível.

Concorda, discorda, vai criar um programa de TV só para falar de arbitragem? Comente, compartilhe e curta a página do Segue o Jogo no Facebook.

A foto de capa retrata um dos maiores choros sem motivo da história recente do futebol.

Comments

comments