Jogos que mudam o mundo

Em um esporte que consiste da sucessão de grandes momentos, o gol a vitória não pode deixar de ser apenas um detalhe.

O futebol está repleto das mais diversas histórias de heróis e vilões forjados em momentos decisivos e de memórias tornadas eternas em um lance singular. Seja uma final disputada, seja uma cobrança de falta, seja uma penalidade batida, são muitas as ocasiões propícias a tornarem-se pontos de inflexão na carreira de um atleta – ou de verdadeira consagração, à revelia de qualquer consistência anterior ou posterior.

Não por acaso, jogadores decisivos são valorizados e certos gols lembrados para sempre, sobrepujando qualquer outro feito da carreira e criando idolatrias forçadas instantâneas (Basílio, Tupãzinho, Gabiru e Guerrero). Algumas defesas também são valorizadas, criando apóstatas santos (adiantado Marcos e sortudo Victor) e coroando grandes atuações.

Valorizar esses momentos é papel do torcedor. Partindo do princípio que qualquer um envolvido com futebol é, antes de tudo, um aficionado (sim, árbitros, jornalistas e jogadores também já tiveram um time do coração), é, pois, natural encontrar ressonância dos aspectos puramente emotivos nas análises, comentários e ações de todos stakeholders do esporte. Mas o gestor de um clube de futebol não deve se fiar pelo imediatismo simplório que preza que a vitória justifica tudo e a derrota transforma todo o trabalho em lixo.

Venci, empatamos, perderam.

Um clube não deveria sujeitar-se ao acaso de um resultado (ou de um lance fortuito). Muitos o fazem, sendo que a derrota inesperada faz abortar planos ou institui o caos no clube, seja por repercussões financeiras (agravada por previsões orçamentárias que contemplam o êxito desportivo para seu equilíbrio), seja pelo desequilíbrio institucional.

O mais emblemático dos casos recentes é o da Lusa Portuguesa. Já vivendo tempos conturbados, o time paulista da colônia despedaçou-se após o caso Héverton. O rebaixamento nos tribunais à Série B foi seguido pelo descenso para a Série C do certame nacional e ainda para a Série A2 do Estadual, ambos em 2014. Certamente a diferença na quota televisiva atrapalhou os planos da agremiação, ao ter direito a R$4 milhões ao invés dos R$17 milhões inicialmente imaginados, mas quase todo clube que disputa um campeonato submete-se ao risco do rebaixamento.

Casos menos extremos pululam no cotidiano do futebol brasileiro. Derrotas em clássicos e eliminações são catalisadores frequentes de mudanças radicais de direção em times. Técnicos demitidos, ídolos execrados e jogadores promissores vendidos simbolizam a submissão das diretorias aos torcedores, incluindo aqueles uniformizados, e, principalmente às pressões da imprensa, cujo trabalho de reportar os acontecimentos é feito, muitas vezes, com uma perna no desespero e outra na crítica ao suporto desespero. A CRISE vende mais do que a calma e a paciência de um trabalho de longo prazo.

Efemeridade ou “O respeito voltou”

O êxito de um resultado também acarreta análises apressadas – para não dizer inadequadas – de força de um clube. Anualmente, os Estaduais no início de temporada acabam enganando parte das torcidas campeãs, que comemoram o justo título achando-se preparados para voos maiores e mais difíceis. Na seleção, vitórias em sequência em amistosos e em torneios menores tomam o lugar dos Estaduais e criam sentimento de euforia, somente para botar em evidência a frustração futura e levar ao reinício constante de um trabalho (conforme argumentado aqui e aqui).

Mesmo campanhas históricas levam também a análises equivocadas. Se o vice-campeonato brasileiro da Portuguesa permitiu a uma reconsideração enganosa da força do time do Canindé, o que dizer das segundas colocações continentais do Atlético Paranaense e do Sâo Caetano, na primeira metade da década de 2000? O que gerou de concreto e duradouro? Muito pouco, para o Furacão da Quinta Comarca do Paraná. Nada, no caso do Azulão do ABC.

Existem também aqueles que brincam com o risco. O Atlético Mineiro, na ânsia de desmentir todos que questionavam – e ainda questionam – se o clube é grande, promoveu, durante a gestão Kalil, contratações e aumento de despesas que impactam o clube até os dias de hoje. Como resumiu o atual presidente, Daniel Nepomuceno, ao anunciar a necessidade de um corte significativo de despesas: “O que ele fez foi um investimento pois teve retorno e voltamos a ser um dos maiores clubes do país”. Ou seja, se hoje os problemas administrativos são relevados pelos resultados em campo e pelas injeções financeiras da BMG e da MRV, é possível afirmar que o Galão da Massa foi salvo pela perna do Victor.

Viver de título

Ninguém discute que um título (ou uma vitória) constitui um momento especial na trajetória de todo clube. É o objetivo maior de todos esforços por parte do corpo diretivo e de seus torcedores. Discute-se, contudo, a ideia que o segundo é o primeiro dos últimos, desvalorizado e não merecedor de crédito. Num campeonato de 20 equipes, apenas uma sagrar-se-á campeã, independente da competência extra-campo das demais 19 (ou mesmo da primeira colocada). É preciso entender que bons trabalhos independem do título e muito deve ser observado mesmo quando o fracasso é aparente.

Clubes (na figura de seus diretores e, por que não, de seus torcedores) devem ter mais confiança nas ações já tomadas. O reinício constante de trabalho raras vezes logra êxito além do curto prazo e transforma o planejamento estratégico, tático e operacional em uma biruta que atua independente dos esforços da direção. Mesmo num esporte que o acaso é preponderante para sua resolução, não há nada pior que contar apenas com a sorte.

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Foto de capa é retirada de publicação de Carlos Alberto Parreira

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