Os jogadores brasileiros estão prontos para dar o próximo passo?

Reflexões sobre a invasão ao CT corintiano

Há uma regra básica em quase qualquer protesto ou manifestação política: alguém tem que ser prejudicado ou incomodado pela manifestação. Greves, por exemplo, devem causar prejuízos ao empregador, ou simplesmente não funcionam como forma de pressão. Não é à toa que em qualquer lugar do mundo protestos tendem a se concentrar nas vias principais da cidade, próximo a edifícios oficiais, ou em lugares de relevância histórica.

Isso não significa que terceiros não relacionados com o fato gerador do protesto não possam acabar prejudicados por estes tipos de manifestações. Assim, greve de transporte público prejudica o usuário, enquanto manifestações na Av. Paulista atrapalham a vida de quem vive ou trabalha na região.

Isso, no entanto, não diminui o impacto da manifestação, nem a torna errada por si. Pelo contrário, a legitima e funciona como instrumento de pressão. Não é por outro motivo que eventos como a Parada Gay de São Paulo recusam-se veementemente a saírem da Av. Paulista para ocuparem o Sambódromo do Anhembi, como tantas vezes sugerido. Aceitá-lo seria eliminar qualquer caráter de manifestação política do evento, que passaria a ser visto apenas como um carnaval fora de época.

Escrevo isso para tentar entender a atitude dos jogadores Corintianos no último domingo. Apesar dos absurdos eventos de sábado, todos entraram no Moises Lucarelli na tarde de Domingo, abandonando a ideia inicialmente sugerida de não entrar em campo. A justificativa oficial para desistir da manifestação repousou sobre os interesses da TV e da Federação, bem como sobre as consequências que negativas que isso poderia trazer para a equipe na competição.

Não defendo aqui que os jogadores deveriam ter mantido a posição de não jogar. Apenas entendo que o evento deste final de semana deixa claro que o Bom Senso – e principalmente seus líderes – se aproximam do momento de dar um passo definitivo em direção a um “futebol melhor para todos”, e demonstram vacilar ante a responsabilidade da decisão.

Até agora as manifestações do Bom Senso, com paralisações ou troca de passes por 30 segundos, foram eventos plasticamente impactantes, mas sem efeitos práticos. Não à toa, receberam apoio irrestrito ao mesmo tempo em que pouco incomodaram quem de fato dirige o futebol brasileiro.

Se Paulo André e os demais líderes do Bom Senso querem de fato reformar o futebol brasileiro, será necessária coragem para arcar com as consequências de seus atos. Na semana passada a Espanha foi exemplo disso, onde o protesto de jogadores do Racing Santander acarretou na eliminação da equipe da Copa do Rei. Apesar disso, a torcida manteve-se do lado de seus jogadores e, como consequência, a reivindicação de destituição da diretoria do clube foi aceita.

Pessoalmente, não acredito que o evento de sábado deva gerar uma paralisação geral no futebol brasileiro. Embora o Bom Senso deva apoiar a manifestação, a paralisação – ou ameaça de paralisação – deveria caber exclusivamente aos jogadores alvinegros, deixando claro para sua diretoria que não aceitarão que as condições para que eventos como o de sábado se repitam. Ainda que isso representasse uma ameaça aos interesses de Corinthians, TV e Federação.

Não tenho dúvidas de que aqueles que estiverem realmente preocupados com o futebol nacional apoiarão a atitude, independente de suas consequências, tal como as atitudes das diretorias de Palmeiras e Cruzeiro foram apoiadas maciçamente pela maior parte de suas torcidas. Os demais farão parte do grupo de prejudicados que precisam existir para que as manifestações alcancem seus objetivos.

Por fim, a Diretoria do Corinthians anunciou algumas medidas e o fim do diálogo com as torcidas organizadas. Se tais medidas serão suficientes, cabe àqueles que viveram momentos de tensão no sábado avaliar.

A única certeza é que fatos como este voltarão a ocorrer ao longo do ano, tal como já ocorreram inúmeras vezes no passado, nos mais diversos clubes nacionais. Quando isso ocorrer, é importante que os jogadores estejam preparados para levar sua indignação às ultimas consequências. Caso contrário, não há como ter um “futebol melhor para quem joga, para quem torce, para quem transmite e para quem patrocinacomo deseja o Bom Senso FC.

 

Concorda com a análise? Comente, discorde, cornete, ou organize seu protesto na Av. Paulista!

Comments

comments