Holanda x Chile – Itaquerão, estética, provocações e a corneta.

Devo confessar que não consegui dormir direito na noite de domingo para segunda-feira. Eu sabia que quando acordasse seria dia de realizar um grande sonho: estar presente num jogo de Copa do Mundo.

Antes de dormir escolhi aquele que seria meu uniforme para acompanhar o cotejo. Apesar de simpatizar com a Seleção Holandesa há tempos, senti-me na obrigação de apoiar os colegas de América Latina. A festa chilena que acompanhei pela televisão somou-se ao desejo de ver meus amigos chilenos alegres e um uniforme rubro era a única alternativa possível. Na ausência da camisa da Seleção Chilena, optei por propagar para a FIFA e para o mundo o nome do Vilavelhense  FC.

Acompanhado de meu irmão e amigos, optamos por utilizar o metrô e o Expresso da Copa para chegar ao estádio, o que se mostrou uma decisão mais do que acertada.

Ao som de Chi-chi-chi-le-le-le avistei da janela do trem aquilo que jamais imaginei que veria: um Estádio corintiano. Se aquilo me causou uma comoção especial, imagino o que não deve sentir um torcedor alvinegro ao se aproximar pela primeira vez de sua “casa própria”.

A entrada no estádio foi tranquila e importante para confirmar uma percepção que eu tinha a partir das fotos da nova arena: o Itaquerão é um dos estádios mais feios que você verá em toda a sua vida.

De longe, como se sabe, parece uma impressora Lexmark. De perto, a parte externa é de causar calafrios. Dentro do estádio, suas linhas tortas e assimétricas causam desconforto. É claro que, com o tempo, corintianos ao menos poderão dar seu próprio toque pessoal ao estádio, garantindo que, ainda que não bela, a arena tenha alma.

 

Itaquerão - Externo

Sentado numa das últimas fileiras da arquibancada provisória no lado oeste, tinha uma visão ampla, porém demasiadamente distante do campo e das demais arquibancadas. Do lugar onde eu estava era capaz de ver o jogo com perfeição, mas não de senti-lo, tal como estou acostumado no Palestra Itália ou no Pacaembú.

Com direito a hino cantado a capella pela maioria chilena no estádio, os minutos que antecedem o apito inicial são sem dúvida os mais emocionantes – você sente que realmente está fazendo parte de um evento especial.

O jogo, em si, não merece grandes elogios. A equipe Chilena, que deveria correr feito louca atrás de uma vitória que a tiraria do caminho brasileiro na competição, mostrou-se desprovida da paixão e garra que ficaram tão evidentes nos primeiros minutos da histórica vitória sobre a Espanha. A equipe laranja, por sua vez, desfalcada de Van Persie e jogando pelo empate, buscava não correr mais do que o necessário sob o forte calor das 13h00.

Com o jogo morno e torcida no mesmo ritmo, a arquibancada revelou-se semelhante à famosa arquibancada G da Fórmula 1, na reta oposta do autódromo de Interlagos. Afirmo que muitos brasileiros que lá estavam pouco se interessavam pelo que ocorria ou deixava de ocorrer dentro das quatro linhas e buscavam viver sua própria Copa do Mundo nas arquibancadas. O foco era a diversão, as piadas (“Para de pular que a arquibancada é provisória!”), o evento, mas não o futebol dentro das quatro linhas. Selfies eram tiradas com o jogo rolando e lugares foram abandonados antes do fim. O exemplo extremo foi uma dupla de amigos que chegaram alegres com seus rostos pintados e cerveja nas mãos, esperaram o apito inicial e então simplesmente decidiram ignorar o jogo e se encaminhar ao bar do estádio para comprar mais cerveja.

 

O segundo tempo não melhorou muito em campo até os minutos finais, mas ao menos trouxe mais emoção às arquibancadas. Coros pedindo Valdívia se intercalavam com xingamentos ao meia chileno, enquanto um grito de “Timão ÊÔ” chegou a dominar o estádio por alguns segundos.

Após o gol holandês, um grupo de brasileiros próximos a mim resolveu parodiar a música Chilena, cantando um bem humorado “CHI-CHI-CHI-LE-LE-LE, CHUPA CHILE!”. Embora a maioria dos chilenos presentes tenha levado a provocação na esportiva, dois torcedores se exaltaram, chegando a responder com outra provocação, esfregando uma camisa do selecionado da CBF em suas partes íntimas. Foi o suficiente para esquentar o clima, gerando um princípio de confusão, devidamente contido pelos demais torcedores, com o pronto apoio dos stewards. Não posso deixar de me questionar se o resultado não seria outro caso o princípio de confusão tivesse ocorrido ao lado de um cordão de policiais militares, como é o caso nas partidas de nossos campeonatos nacionais.

No meio de toda essa linda experiência “padrão FIFA”, um fato isolado me fez olhar com ainda mais alegria para o futebol brasileiro. À minha frente sentava um garoto de aproximadamente 9 anos, devidamente ornamentado com sua camisa do Palmeiras, enquanto segurava um cartaz. Após algum tempo consegui ler o teor do cartaz: #FICAVALDÍVIA e #FORAJOSIMAR. A corneta vive, e com ela vive o espírito do futebol.

Vilavelhense

 

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