[GUEST POST] É Copa, amigo

Autor convidado – Luiz Felipe Pereira

 

Ainda fico puto quando o Palmeiras perde. Principalmente quando a derrota é para algum time rival ou para algum time sem expressão. Em resumo, perder, seja para quem for, não é algo que me agrada muito no futebol. Noto, porém, não sem um pingo de tristeza, que nos meus últimos anos de vida não sofri nem vibrei tanto com o futebol como costumava sofrer e vibrar nos meus primeiros anos de vida e futebol, duas coisas que se confundiam lá pelos idos de 89, quando me dei por gente e quando o dono do bar que ficava ao lado da casa dos meus avós no sul de Minas pendurou um pôster do Botafogo campeão do campeonato carioca na parede.

Quando eu era criança, o futebol tinha uma importância enorme para mim e para os meus amigos. Amizade e futebol eram coisas quase que inseparáveis: você escolhia seus amigos pelo time que eles torciam, o que significava que você seria mais amigo daquele garoto que torcia para o mesmo time que você. Era óbvio que existiam amizades entre torcedores de times diferentes. Isso não impedia, contudo, que você sacaneasse seu melhor amigo quando o time dele perdia.

Naquela época, isso acontecia geralmente na segunda-feira, já que as rodadas eram quase sempre realizadas nos finais de semana – isso não valia para os cariocas, que imitaram os britânicos por um tempo, com jogos isolados na segunda-feira, invariavelmente envolvendo um time grande contra um pequeno, em algum estádio medonho de nome engraçado (Moça Bonita!) com pouca iluminação. Segunda-feira era o dia em que o torcedor do time derrotado no final de semana queria se esconder. Alguns simulavam doenças, outros chegavam em cima da hora, outros, ousados mas minoria, vinham com a camisa do time derrotado por baixo do uniforme, e usavam títulos de outras épocas para se defender (“Bi-Mundial!”). Aqueles que tinham mães mais insensíveis ao sofrimento futebolístico, ou aqueles que tinham mães preocupadas com horário – como a minha, que às vezes me deixava na porta da escola antes da abertura dos portões (a ironia, da qual só me dei conta agora, era que o hino da escola começava com “abre esse portão que eu quero entrar…”) não escapavam: eram azucrinados desde o primeiro passo na escola até o horário em que a mãe chegava para buscar – e aqui eu tenho que fazer novo comentário negativo sobre minha mãe, pois ela quase sempre chegava para me buscar depois que os portões da escola já estavam quase fechando.

Especialmente para mim, as segundas-feiras era dramáticas, pois eu torcia para o Santos. Sei que quem está lendo com atenção me chamará de vira-casaca, como muitos dos meus amigos fizeram quando descobriram que troquei o Santos pelo Palmeiras, no início da Era Parmalat. Paciência. Poucos sabem o quanto era duro torcer para o Santos no início dos anos 90. Talvez, ironia do destino, apenas os que acompanharam o Palmeiras nos anos 2000 saibam do que estou falando. Confesso que eu até gostava de ser minoria, de ser do contra, de ser o diferente. Na minha classe, por exemplo, só mais um colega torcia para o meu time. Para provar que aquela história de escolher os amigos pelo time era verdade, o meu companheiro de insucessos futebolísticos era também o meu melhor amigo, que, coincidência ou não, teve a grave falha de caráter de trocar de time – ele escolheu o São Paulo na mesma época que eu escolhi o Palmeiras. Aguentar a gozação das segundas-feiras sozinho talvez tenha sido um dos motivos para que as mudanças tenham ocorrido no mesmo dia. Se não me falha a memória, decidimos que mudaríamos de time numa segunda-feira pela manhã, antes do sinal das 7h20, possivelmente depois de mais um final de semana com derrota para algum time representado por mais de cinco torcedores da nossa sala.

Mudei de time, é verdade, mas nunca mudei de seleção (um outro amigo, não aquele que mudou para o São Paulo, chegou a mudar de seleção e passou a torcer pela Argentina; a Copa de 94 tratou de convencê-lo a voltar atrás – como vira-casaca assumido, não o culpo pela decisão). Poucos são os nascidos na primeira metade dos anos 80 que não dirão que a seleção brasileira era tão ruim quanto o Santos daquela época. Não, não quero justificar minha mudança de time, mas só queria mostrar como eu sofri em dobro na infância, com time e seleção jogando mal. Sorte que não havia nenhum argentino na minha escola para me zoar na segunda-feira. Sorte também que me lembro de pouca coisa da Copa de 90: Totó Schillaci, Cannigia, trombada do Alemão com o Dunga, o goleiro da Colômbia, o pênalti desperdiçado pelo Serena na semifinal contra a Argentina – dei um Google, mas só para confirmar que era o Serena mesmo, que anos depois seria meu jogador no Elifoot – , o mascote medonho da Copa, a derrota de Camarões para a Inglaterra, os desenhos dos mascotinhos que vinham no chiclete Ploc e funcionavam como uma tatuagem, se você molhasse, colocasse no braço e raspasse em cima, e o pênalti da final, que durante muito tempo minha cabeça de criança achou que tivesse sido apenas uma falta estranhamente sem barreira.

Da Copa seguinte, em compensação, lembro-me de quase tudo, sem Google pra confirmar. Dias dos jogos, escalação da Romênia, bicicleta do Balboa, cavanhaque do Lalas, cabelo do Valderrama, atacante da Nigéria chorando na rede ao comemorar um gol, zagueiro do México derrubando a trave no jogo contra a Bulgária ao se agarrar na rede para fazer não-sei-o-que-lá, as piadinhas que o Estadão fazia na última página do caderno de esportes na véspera de cada jogo do Brasil, o nariz do Tab Ramos sangrando, o Ivanov, aquele zagueiro búlgaro barbudo, dando aquele capote ao tentar, desesperadamente, evitar um gol da Suécia na disputa de terceiro e quarto, os cards da Copa, o amarelinho, o último jogo da preparação do Brasil antes do torneio, contra a Islândia, o Romário vergando as costas no chute do Branco, num movimento Matrix avant la lettre, o gol do Owairan, a enfermeira de mão dada com o Maradona, e mais um monte de detalhes que vão surgindo em minha mente em uma ordem absolutamente caótica e improvável. Ela seguramente ficou tão marcada em minha memória por ter sido a primeira Copa que eu vivi de verdade, depois de ter esperado 4 anos – se “semana que vem”, artifício muito usado por mães, avós e irmãos mais velhos para dizer quando você poderia comer aquela pipoca do saquinho vermelho que grudava no dente e que você queria comer no dia em que estava fazendo a pergunta, já era longe pra cacete na cabeça de uma criança, pense num período de 4 anos! Mais do que isso: a única Copa que você viu inteira e nenhum argentino apareceu para estragar, o Brasil ganhou!

Vinte anos depois, a vida se tornou bem mais complexa – embora continuem as brincadeiras na segunda-feira quando meu time perde. Elas diminuíram de frequência, menos pelas derrotas do meu time, que segue perdendo bastante, do que pela distância da minha cidade e maturidade dos colegas de trabalho com relação à maturidade dos colegas de classe. Em ano de Copa, o futebol parece não encantar como antes. Mas, pensando bem, continua tendo muita importância. Afinal, a decisão vai cair justo no dia do meu aniversário. E por mais que eu esteja precisando de um cinto preto ou calça jeans, o presente que eu mais queria ganhar era o título. Porque eu sei muito bem como é uma segunda-feira depois de um domingo de derrota.

Luiz Felipe Pereira é diplomata brasileiro, já foi santista e hoje torce pelo Palmeiras

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