Eu gosto é do futebol

O texto abaixo é uma resposta ao texto São Paulo Futebol Clube – O Mais Querido (?) também publicado neste blog

 

Fico muito triste com o clima hostil que já domina o futebol há umas belas décadas. Lembro que quando eu era menor (e o São Paulo planava em céu de brigadeiro) via manifestações sinceras de admiração pelo futebol jogado pelo meu time por parte dos torcedores rivais. Ganhei inclusive uma faixa de Campeão Brasileiro de 1991 de um santista casado com uma prima do meu pai. Lembro também que esse mesmo amigo nos acompanhou algumas vezes ao Morumbi para assistir a jogos que não envolviam o seu time. Eu estranhei. Ele disse: gosto do futebol. Eu assumo que não gostava. Pelo menos não daquele jeito. Assumo que o prazer vinha de ver o MEU time ganhar de todo mundo e sentir algum pertencimento naquela glória.

Quando o Palmeiras anunciou o patrocínio da Parmalat em 1993 eu lembro de ter me sentido injustiçado com o que via como uma burla das regras do jogo. Como aquele caminhão de dinheiro chegava assim sem mais nem menos e conseguia reunir um time de craques de uma hora para a outra fazendo até meus ídolos (sim, ídolos) Antonio Carlos, Cafu e mais tarde Muller virarem a casaca? Tinha acabado a fantasia. Era uma espécie de ultraje não ser o meu o time campeão. Será que torcer de verdade por um time era isso? Derrotas?

Foi com desapontamento e total inexperiência na arte de saber perder que eu assistia o antes inofensivo time do meu avô (16 anos de fila!) passar como um trator sobre o tão incensado escrete de Telê Santana. O muxoxo acabou virando raiva e adesão incondicional a boatos sobre um tal “esquema Parmalat” que determinava que os juízes sempre expulsassem alguém do nosso time e ainda dessem pênalti ao nosso desfavor toda vez que enfrentávamos os agora favoritos a tudo (o que, olhando restrospectivamente, não deve ter passado de coincidência engendrada pelos deuses do futebol). A derrota vinha sempre muito mais amarga do que devia. Descia menos redonda que a legítima Skol.

Órfãos da sensação de invencibilidade muitos coleguinhas são-paulinos também viraram a tal casaca (se vestiam bem além de tudo) e viraram palmeirenses desde criancinha, enquanto eu permaneci (bravo) no apoio ao time em consideração ao meu pai, sempre fervoroso, e com a esperança de contradizer aquela parte do hino (“.. as tuas glórias vêm do passado”) .

Depois de um bom período de decadência futebolística e despeito aos palmeirenses eis que aquele outro time da cidade cuja característica que me era mais familiar era ter o patrocínio da Kalunga resolveu despontar como “todo poderoso” por volta do ano da graça de 1998. Era a primeira vez que eu via corinthianos orgulhosos, de peito estufado, contando vantagem. Mais uma vez tudo poderia ser explicado na minha cabeça infanto-juvenil por supostas manobras de bastidores, transferências suspeitas, ajuda de fundos de investimento misteriosos, corrupção,etc… A vitória era deles mas não era legítima. O meu time é que apesar de ruim era o melhor.

A canoa virou e a prática que eu considerava hilariante da tiração de sarro se voltou contra mim. Quer dizer que além de derrota eu tenho que encarar desrespeito? O fardo me era incômodo. Para quem tinha ficado por baixo e aguentado desaforo por um tempo razoável a chance era de vingança. Os corinthianos me pareciam sedentos por humilhar os são-paulinos. E o ponto de ebulição foi quando o jogador Vampeta se referiu aos nossos como bambis. Aquilo me saiu a golpe baixo e desproporcional. Duvidavam da minha masculinidade de 14 anos? Aquilo era impensável. Só sei que me pareceu que ali se cruzou uma linha. Desde então as provocações recíprocas são menos sutis e a violência nua e crua é cada vez mais escancarada. Os corinthianos são cada vez mais chamados de favelados, ladrões, assassinos até (em razão da morte do menino boliviano Kevin Espada) e os são-paulinos são coxinhas, viados, travecos, etc… Sempre com fúria, palavrões cuspidos com olhar vidrado;

Mas vamos lá no bonde da nostalgia na terra onde Trajano e Calazans são mais felizes.

Meu pai se tornou são-paulino justamente na época da construção do Morumbi e do maior jejum de títulos do São Paulo (13 anos, que é os 23 anos de fila do Corinthians menos 10). Ele não viu o próprio time ser campeão até os 14 anos de idade enquanto o meu avô palmeirense se refastelava com as apresentações da Academia. Mas meu pai gostava era do futebol. Teve a chance de acompanhar a carreira de Pelé cuja estreia no Santos se deu no dia do seu nascimento (07/09/1956), de Ademir da Guia, de Garrincha e inclusive era muito fã do Rivelino. É claro que existia tiração de sarro dentro e fora de casa mas o respeito imperava sempre e se sabia (ou pelo menos se intuía, vá lá) que o ganhar a todo custo, que a violência, o desrespeito simplesmente destruía toda a graça da coisa.

Existiam os estereótipos do corinthiano pé-rapado sofredor, do Palmeirense dono de cantina e do são-paulino aristocrata e bon-vivant. No rádio, pelo que me lembro dele contar, cada torcida tinha uma espécie de torcedor símbolo e o são-paulino era um milionário que tinha um bordão, depois muito repetido pelo Milton Neves: “Como é fácil torcer para o São Paulo…” Na época a brincadeira não passava muito disso era o que ele dizia.

Desde a fundação em 1930 até a contratação de Leônidas em 1943 o São Paulo era um time de menor expressão na cidade, patinho feio frente aos já poderosos Corinthians e Palestra Itália e portanto angariador de simpatias à lá Portuguesa. Na década de 1940 ombreou com os co-irmãos (© Adriano) e cresceu sempre desde então, descontando o hiato daqueles 13 anos de fila. Com isso o torcedor foi ficando mais exigente e mal acostumado enquanto os rivais estranhavam esse crescimento e a perda da hegemonia o que sempre irrita e constrange.

Cada time justificou seus momentos menos gloriosos com mistificações de todo o tipo. Segundo os palmeirenses é verdade indiscutível que foi o São Paulo o responsável pela sua perseguição pelo governo Getúlio Vargas. Para os corinthianos é patente que o Morumbi só pode ter sido construído com base em achaques ao contribuinte já que o presidente do São Paulo foi governador do Estado. Acusações graves e levianas que como bom costume brasileiro são tachadas de meras brincadeiras.

O tempo passa diferente para cada um. Eu hoje percebo melhor a infantilidade desse tipo de comportamento conspiratório que culpa sempre o outro pelos nossos fracassos. É a vaidade ferida de que o nosso clube, o nosso time, aquele do qual nós fazemos parte (ou assim pensamos) não possa jamais estar mal por seus próprios defeitos, que não tenha sido prejudicado por ninguém a não ser pela sua própria incompetência, burrice, deslumbramento. Assim como nós mesmos que teimamos em não enxergar nossa mesquinharia, nosso egoísmo, nossa patetice.

Hoje eu não vejo mais o bom humor de antes. Ou até vejo de vez em quando, mas sempre misturado com alguma espécie de rancor ou de verdadeira ira. Quando e por que homens e mulheres adultos resolveram que uma disputa futebolística era caso de vida e morte? Parece que a infantilidade ao invés de ser superada é coroada como verdadeira virtude. E esses nababos desses cartolas promovem a hostilidade com essas provocações idiotas e depois vão se refastelar em beijinhos secretos com os outros cartolas ditos inimigos enquanto as torcidas de miseráveis de espírito vão se matar a pauladas em nome do time.

Eu gosto hoje é do futebol.

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