Futebol e violência na terra da Copa

A violência não acontece por acaso

 

Diz-se que quem muito brinca com fogo, acaba queimado. Não há jeito melhor de analisar a temporada 2013 do futebol Brasileiro. Pululam na memória do Podcast Segue o Jogo casos de brigas, confusões, acidentes e tumultos generalizados que por pouco não geraram vítimas incontáveis no ano. Ou, no evento de fatalidades, a repercussão deu-se em doses homeopáticas, incapaz de causar comoção e gerar um verdadeiro – e necessário – chute na bunda dos organizadores, jogadores, autoridades e torcedores do futebol brasileiro.

O encerramento do Campeonato Brasileiro escancarou a questão da violência nos antigos estádios e nas novas arenas. A batalha campal entre torcedores de Atlético-PR e Vasco da Gama terminou com 3 feridos graves, o que foi pouco, dadas as proporções do combate e as primeiras barrigas notícias da imprensa. De maneira simbólica, o atraso de quase uma hora devido à paralisação da partida, fez com que a contenda realizada em Joinville se encerrasse muito após os demais jogos, concentrando a atenção de todos os que ainda se preocupavam com rebaixamento ou vaga na Libertadores e aqueles que ainda tinham estômago para futebol após os acontecimentos do dia.

A intensidade das reações populares e oficiais aos acontecimentos de 08 de Dezembro só tem paralelo com a rapidez com a qual o episódio deixará de ser mencionado no mundo do futebol. Aos discordantes, basta lembrar da última rodada do nacional de 2009: uma equipe paranaense e uma carioca envolvidas na disputa contra o rebaixamento, com o descenso da equipe local provocando cenas de barbárie e vazias promessas de “nunca mais”.

Pouco foi feito e novas cenas de desorganização, despreparo e violência não tardaram em acontecer. Falta-nos, segundo alguns, uma tragédia verdadeiramente grave para que todos os envolvidos no futebol convençam-se de que algo precisa ser feito. As tragédias de Heysel ou de Hillsborough, percebidas como catalizadoras de mudanças no exterior são aguardadas no Brasil, como um macabro norte que seria necessário para que o futebol realmente se transforme.

Ou melhor, faltava.

A Batalha da Arena Joinville, como há de ser conhecido o vergonhoso episódio da 38ª rodada, foi apenas o ato final de uma temporada que flertou com o perigo e com a falta de segurança, sem esquecer, contudo, o elevado número de vítimas em centros secundários do futebol brasileiro, que contou com um esquartejamento no Maranhão, num total de 30 mortes relacionadas ao esporte.

No dia 5 de Outubro, no estádio do Frasqueirão,

Superlotação em Natal

Superlotação em Natal

em Natal, um grave caso de superlotação impediu o início da partida entre ABC e Palmeiras e assustou a todos que acompanharam as imagens. O episódio fez lembrar algumas das maiores tragédias ocorridas em estádios de futebol, e também casos brasileiros, como a final de 2000, em São Januário, e a de 1992, no Maracanã.

Os casos de briga entre torcedores foram, infelizmente, muito mais numerosos. Como demonstra infográfico da ESPN.com.br, houve os seguintes incidentes:

– 9ª rodada, Grêmio x Fluminense, em Porto Alegre;

– 16ª rodada, Vasco x Corinthians, em Brasília;

– 28ª rodada, Atlético-MG x Cruzeiro, em Belo Horizonte;

– 28ª rodada, São Paulo x Corinthians, em São Paulo;

– 30ª rodada, Goiás x Atlético-PR, em Goiânia;

– 33ª rodada, Portuguesa x Coritiba, em São Paulo;

– 37ª rodada, Cruzeiro x Bahia, em Belo Horizonte.

 A eles, somam-se inúmeros outros, ocorridos nas redondezas dos estádios ou a quilômetros de distância do local de partida. Em seu conjunto, esses acontecimentos parecem ter servido de preparação para a partida de Joinville.

O jogo do dia 8 de Dezembro significa, por diversos motivos, a queimadura do futebol brasileiro. A começar, pela repercussão. Nacionais ou internacionais, as manchetes foram impiedosas. Muitos correspondentes internacionais estavam ainda no país, em decorrência do sorteio da Copa do Mundo. O próprio evento serve para ampliar a atenção, colocando em dúvida a capacidade do país de sediar competições e de dar segurança aos consumidores do produto futebol.

Nada acontece por acaso

O festival de erros envolvendo a famigerada partida iniciou-se muito antes do pontapé inicial. Começa com a proibição de jogo na sede natural do Atlético Paranaense, a paranista Arena Capanema. Passa por um plano de segurança insuficiente e mal executado, desconsiderando o potencial de risco da partida. E termina, imagina-se, com campanha pelo fim das torcidas organizadas, com prisão de um punhado de torcedores e com a perda de mandos para cada equipe.

Em decorrência de brigas no clássico contra o Coritiba, em 6 de Outubro, o Atlético-PR foi obrigado a mandar seu jogo a mais de 100 quilômetros da capital do Paraná. Escolheu a cidade de Joinville como sede que, embora acostumada a sediar jogos do JEC, não tem o mesmo preparo de Curitiba para eventos desse porte. É a mesma situação de Brasília, cujos responsáveis pela operação estão menos familiarizados com as demandas de uma partida de alta periculosidade.

Somado a isso, uma ação civil pública proposta pelo Ministério Público catarinense limitou a atuação da Polícia Militar em um evento de natureza privada. Decisão correta e necessária, já que a PM catarinense é responsável pela segurança ostensiva da população, não sendo adequado deslocar homens e recursos escassos em benefício de poucos entes privados. Dessa forma, a obrigação de zelar pela prevenção de conflitos dentro do estádio é dos seguranças privados, sob responsabilidade da parte mandante e organizadora, o Atlético-PR. À Polícia Militar cabe a realização do plano de segurança do evento, a capacitação das forças privadas e a intervenção em caso de conflito, além da manutenção da ordem em áreas externas. Contudo, a maneira na qual foi feita a transferência de responsabilidades resultou apenas um vácuo de responsabilidades que prejudicou tanto o evento em si quanto a segurança pública.

Sendo a barbárie um fait accompli, resta discutir como atribuir responsabilidades e punir malversações.

O Código Brasileiro de Justiça Desportiva define o clube como solidário na repreensão em caso de atitude violenta da sua torcida. Um clube pode ser punido simplesmente por um malfeitor ter afinidade com a agremiação, mesmo que não participe da organização do evento. É o efeito educativo da pena desportiva, que, ao punir o clube, espera fazer com que o bandido travestido de torcedor pense duas vezes antes de agir, e que seus colegas sejam capazes de contê-lo. Outra dimensão de responsabilidade é aquela atribuída ao mandante de uma partida, na condição de entidade que organiza todos os aspectos de um jogo, da segurança às condições de gramado.

Já o Estatuto do Torcedor atribuiu às torcidas organizadas responsabilidade solidária para com seus membros. Ou seja, a agremiação de torcedores pode ser punida pela briga de seus integrantes, respondendo pelos danos eventualmente causados. Não raras vezes, a torcida organizada é suspensa dos estádios e ameaçada de extinção, não estando, em geral, os órgãos públicos silentes quanto a isso. Falta, contudo, mais veemência em relação à punição individual dos torcedores. Além das tipificações tradicionais, como dano, formação de quadrilha, furto e tentativa de homicídio, o Estado conta com punições específicas em caso de quebra de lei.

É a opinião deste escriba que a composição das arquibancadas – e das famigeradas torcidas organizadas – reflete a sociedade que as forma. Há agravantes que devem ser combatidos por todas as partes que têm interesse no futebol: os clubes, as federações, o poder público e a própria torcida. A segregação de torcidas no estádio ajuda que elas se considerem inimigas, o ambiente desportivo de soma zero acirra os ânimos e a proteção concedida pela atuação em grupo incentiva os atos violentos.

Mais significativa, porém, é a forma conivente com a qual o problema é encarado. Os torcedores são reprimidos de maneira ostensiva e não criteriosa por uma polícia despreparada e incapaz de controlar os ânimos sem exceder no uso da força. Os clubes, jogadores e demais torcedores, temerários da reação em caso de crítica, defendem o “seu torcedor organizado”, permitindo que estes assumam a posição de batalhão de frente da equipe, para o bem e para o mal. Por fim, reina uma sensação de impunidade que inutiliza as amarras comportamentais do geraldino e suas modernas versões. O crime é sempre cometido pela coletividade. Quando calha de se identificar um ou outro, não mais que um punhado é punido, mesmo que os partícipes cheguem à casa das dezenas.

A punição seletiva parece ser o resultado da briga ocorrida em Joinville. Apenas 3 indivíduos foram presos até o momento, e outros cuja participação no combate foi comprovada foram liberados sem maiores problemas. É o caso dos 3 feridos graves, tratados como vítimas, mas que deveriam responder como autores dos crimes que cometeram ao brigar.

Em um contexto mundial de aumento de violência nos estádios, o futebol brasileiro deve reagir. Fazer uso das ferramentas que já lhe estão disponíveis é uma obrigação, criar novos meios de atuar, uma necessidade. Deve-se responsabilizar aqueles que fogem de suas obrigações, punindo os organizadores que colocam vidas em risco e os perpetuadores de crimes de forma ainda mais severa do que se pune, hoje, o elo mais fraco da cadeia do futebol: o esporte.

Concorda com o desabafo a análise? Comente, cornete, só não vale brigar em campo.

O Podcast Segue o Jogo já discutiu o tema em seu Podcast#4-B, mas infelizmente ele sempre se mantém atual. Para escutá-lo vá ao post ou clique no player abaixo.

A foto da capa foi retirada do sítio da ESPN.com.br

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