A outra face do esporte universitário nos EUA

A luta por direitos dos atletas universitários e o caso da northwestern university

Quando se questiona no Brasil a formação educacional dos jogadores profissionais de futebol ou se discute como tratar crianças que abandonam a estrutura familiar em busca do sonho de viver do esporte, não é raro que o modelo americano de esporte universitário seja citado como exemplo a ser seguido. O mesmo se dá quando o assunto é o desempenho do Brasil em competições de primeira grandeza no esporte olímpico (como pode ser visto aqui, aqui, aqui e aqui também).

O modelo que, em teoria, garantiria a jogadores profissionais – e principalmente àqueles que nunca atingirão o profissionalismo – uma formação acadêmica de qualidade, tem inúmeros méritos que merecem ser debatidos em um texto próprio. No entanto, a tentativa de sindicalização dos jogadores de Futebol Americano da Universidade de Northwestern revela os problemas deste sistema, uma face pouco conhecida pelo grande público no Brasil.

O assunto não interessa somente aos estudiosos das Relações do Trabalho. Para o amante de esporte é relevante entender as razões que levaram os jogadores universitários a tentarem a sindicalização.

Para quem vê esporte universitário como sinônimo de Jogos Jurídicos, JUCA, Economíadas e Engenharíadas, etc., pode ser difícil imaginar, mas as modalidades universitárias nos EUA movimentam bilhões de dólares anualmente.

Para se ter uma ideia, o técnico de Futebol Americano da Universidade do Alabama recebeu em 2012 mais de 5,5 milhões de dólares em salários. Tal quantia daria pouco mais de um milhão de reais por mês – um salário de fazer inveja aos técnicos de futebol das grandes equipes brasileiras. Se você achou pouco, fique tranquilo. Nick Saban, o técnico em questão, renovou o seu contrato no fim de 2013 para novos salários anuais na faixa dos 7 milhões de dólares…

É importante frisar que Nick Saban não é exceção. O centésimo nome da lista de técnicos universitários mais bem pagos de 2012 veio da Universidade de Toledo (OH), com ganhos anuais de mais de 450 mil dólares. Nada mal para uma universidade com poucos resultados expressivos, não?

Se a universidade paga salários desta grandeza é porque as receitas provenientes de seus programas esportivos assim a permitem.  A Universidade do Texas em 2012 obteve receitas de mais de 160 milhões de dólares, dos quais 60 milhões foram provenientes da venda de ingressos e pouco mais de 50 milhões foram frutos de licenciamento de sua marca. No câmbio da época a receita total seria de aproximadamente 330 milhões de reais, valor muito próximo da receita obtida pelo Corinthians no mesmo ano (R$358,5 milhões), quando conquistou nada menos do que a Libertadores da América e o Mundial Interclubes da FIFA.

A NCAA – National Collegiate Athletic Association, que é a associação responsável pelo esporte universitário americano, obteve receitas de 841 milhões de dólares no ano fiscal de 2012, distribuindo 522 milhões para as equipes que disputaram o March Madness – as finais do basquete universitário. De onde vem o dinheiro da NCAA? Simples. 84% é proveniente da venda dos direitos de transmissão para a TV.

Acredito que já esteja bastante claro para o leitor o que queremos dizer quando afirmamos que o esporte universitário americano movimenta bilhões de dólares. A próxima pergunta natural é: quanto desse dinheiro vai para os jogadores? Quais os salários das verdadeiras “estrelas desse espetáculo”?

A resposta pode surpreender mas é….ZERO. Jogadores universitários são proibidos de receber salários, luvas ou bonificações. É evidente que as universidades possuem gastos indiretos com os jogadores, desde estrutura para treinamento, técnicos, fisioterapeutas, etc., até as famosas bolsas de estudo para atletas – as quais nem sempre cobrem o valor integral das anuidades da universidade.

Com esse cenário é de se esperar que a tentativa de sindicalização dos jogadores de Northwestern tenha como objetivo negociar salários, para que os atletas recebam a sua parte naquilo que contribuem para esta indústria bilionária, certo? Errado. Recebimento de salário não está entre os inúmeros objetivos do possível sindicato.

Para entender as demandas dos atletas é preciso tomar conhecimento de alguns números e fatos que podem chocar o leitor.

Como é de conhecimento geral, muitos dos atletas universitários recebem bolsas de estudo. No entanto, só fazem jus à bolsa aqueles que jogam. Em outras palavras, não é raro que jogadores que se contundiram na prática do esporte vejam-se desamparados da bolsa durante o período de recuperação. Para aqueles cuja contusão significa o fim da carreira atlética, ela também pode significar o fim da carreira acadêmica.

A justificativa jurídica usada pelas universidades para que seus atletas não sejam caracterizados como empregados baseia-se no argumento de que, primordialmente, todos estes atletas são estudantes. Uma posição que perde credibilidade quando dados da própria NCAA revelam que, em média, um jogador de futebol americano de uma universidade de elite no esporte gasta 43.3 horas por semana em treinamentos ou jogos. Jogadores de basquete não ficam muito atrás, com 39.2 horas de treinamentos ou jogos por semana.

Tais dados ajudam a destruir o maior mito do esporte universitário americano – de que ao menos o atleta tem a oportunidade de concluir um curso superior, que lhe será útil ao fim da carreira ou caso a carreira não se consolide. Se o compromisso maior fosse com a educação, as estatísticas sobre a quantidade de atletas que concluem seus cursos seriam muito superiores aos 57% e 47% de atletas de futebol americano e basquete que se graduam, respectivamente.

Os problemas, no entanto, não param por aí. Falta uma política de saúde efetiva para combater os inúmeros casos de concussão que marcam a prática do futebol americano, seja profissional ou universitário, bem como uma ampla cobertura médica, inclusive para aqueles que sofrem as consequências da prática esportiva de alto rendimento após a graduação, ou após verem suas carreiras interrompidas por contusões.

Com tudo isso, passa a ser mais fácil entender o porquê, apesar dos bilhões de dólares envolvidos, tudo que os atletas de Northwestern pedem no momento diz respeito a (i) cobertura médica para contusões relacionadas à prática esportiva para atletas em atividade e para aqueles que já não fazem mais parte dos programas; (ii) esforços para adoção de políticas e práticas que minimizem contusões e danos cerebrais; (iii) e criação de fundos que garantam a possibilidade de conclusão dos estudos para aqueles que tenham de abandonar a carreira atlética.

O National Labor Relations Board – NLRB, agência governamental responsável por conduzir o processo de sindicalização, ainda não se manifestou definindo se os atletas universitários são legalmente empregados e, portanto, passíveis de sindicalização. De qualquer modo, a decisão do escritório regional do NLRB será apenas o primeiro passo de um embate jurídico que tem grandes chances de se estender aos tribunais norte-americanos.

Como se vê, uma luta por direitos para Paulo André nenhum botar defeito…

 

 

 

PS: Para se entender o que está acontecendo na Northwestern University é preciso primeiro entender que o sistema sindical e legislação trabalhista americano são completamente diversos daquilo que estamos habituados no Brasil. O mais relevante nesse caso é compreender que empregados que desejam sindicalizar-se devem peticionar a um órgão governamental (National Labor Relations Board – NLRB), que, após avaliar o cumprimento dos requisitos legais, promoverá a eleição sindical. Se a maioria dos trabalhadores daquela unidade decidir pela sindicalização, o sindicato passa a representar todos os trabalhadores na unidade. Se a maioria não votar pela sindicalização, a unidade continua livre de sindicatos (o sonho e objetivo de grande parte dos empregadores americanos).

É nesse contexto que há duas semanas os jogadores de Futebol Americano de Northwestern pegaram o país de surpresa ao peticionarem para o NLRB pedindo a realização de eleição para representação sindical.

 

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A foto de capa foi retirada do site da Northwestern University.

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