A “elitização dos estádios” é a PEC 37 do futebol brasileiro

Como o discurso da elitização dos estádios esvazia um importante debate sobre os modelos de gestão da relação clube-torcedor

Em junho deste ano, os dias que se seguiram ao anúncio da redução do preço das passagens de ônibus em São Paulo, então celebrada como símbolo da vitória dos manifestantes, trouxeram junto de si o linchamento público da Proposta de Emenda à Constituição 37, a famigerada PEC 37.

Buscando desesperadamente dar uma resposta àqueles que afirmavam que o “levante popular” adormeceria após o anúncio da revogação do aumento de R$ 0,20, uma parcela dos manifestantes, organizando-se mais uma vez através das redes sociais, elegeu a PEC 37 como os R$ 0,20 da vez.

O espetáculo que se viu em seguida foi desolador. Frases de efeito (ou de nem tanto efeito assim) eram compartilhadas no Facebook, com a imagem da máscara de Guy Fawkes ao lado, mostrando a banalização da técnica do argumento de autoridade na rede de Zuckerberg. O pejorativo apelido dado à PEC por parte da imprensa – a PEC da Impunidade – era repetido como se isso bastasse como argumento pela derrubada da dita proposta no Congresso.

De fato, o que se viu não foi o debate entre dois modelos possíveis de investigação criminal, mas sim o esvaziamento de qualquer possibilidade de debate sobre o tema. Se não bastasse a falta de debate das redes sociais foi transferida ao congresso, que rejeitou a proposta na Câmara por maioria esmagadora e sem qualquer debate real sobre o tema.

O leitor que até aqui chegou deve estar se perguntando: e o que isso tem a ver com futebol? O que a agora esquecida PEC 37 está fazendo num blog esportivo?

A resposta é simples: o tratamento que tem se dado, a começar por parcela significativa da imprensa esportiva, ao tema da “elitização” dos estádios brasileiros tem levado ao completo esvaziamento de qualquer possível debate sobre os modelos de relacionamento dos clubes com seus torcedores, ou sobre os modelos de administração dos estádios brasileiros.

Ao apontar o dedo acusatório para os gestores dos clubes e dos estádios e afirmar que a política de preços praticada faz parte de uma estratégia de “elitização” do futebol brasileiro, jornalistas e torcedores esvaziam o debate, tal como o apelido dado à PEC ou a estratégia cada vez mais comum em debates de cunho político de definir todo e qualquer opositor como fascista.

Quando da primeira partida da Série A no Mané Garrincha, ou quando do primeiro jogo do Flamengo como mandante no novo Maracanã, o mantra da elitização dos estádios voltou a ser repetido por nove em cada dez cronistas esportivos. Os poucos que tentavam levar o debate para outro nível, buscando entender a real história que contavam os números dos borderôs, eram desconsiderados pelos colegas e achincalhados por parcela significativa do público.

No Linha de Passe de 29 de julho, um dia após Flamengo e Botafogo levarem 52.361 pessoas ao novo Maracanã (das quais 13.508 gratuidades), Paulo Vínicius Coelho sofreu para explicar aos colegas de bancada, sem sucesso, que apesar de, em teoria, o ingresso mais barato vendido tivesse o valor de face de R$ 100,00, o valor médio do ingresso era significativamente inferior em função da festa da meia-entrada praticada nos estádios brasileiros e dos descontos decorrentes dos programas de sócio-torcedor.

Em tarefa mais detalhada – e arriscada – o jornalista André Fontenelle, do Blog Mata-Mata, esmiuçou parte dos números envolvidos na venda de ingressos das partidas do Flamengo no novo Maracanã e do Grêmio na nova Arena, com o provocativo título Viva a “elitização” do futebol! Apesar de declarar na primeira linha de seu texto que o título não passava de uma provocação, o jornalista, que também participou do programa redação SporTV no mesmo dia, foi chamado no Facebook de “Animal, estúpido, doente, burguês, elitista, anti-torcida, anti-futebol, pseudo jornalista, vendido (…)” pela Frente Nacional dos Torcedores, associação responsável pelo protesto organizado do lado de fora do Maracanã na partida Flamengo x Botafogo.

Como qualquer análise mais atenta do tema permite concluir, a situação dos estádios brasileiros vai muito além de uma suposta elitização, a qual também não se explica somente nos preços dos ingressos.

Culpar o preço dos ingressos pelo esvaziamento dos estádios é ignorar as baixíssimas médias de público que historicamente marcam o campeonato brasileiro, notadamente a partir do fim da década de 80, tendo atingido seu ponto mais baixo em 2004 (7.556 pessoas), quando Santos e Atlético-PR disputaram o título até as rodadas finais.

Afirmar que parcela da população foi expulsa dos estádios a partir do processo de “elitização” é ignorar que a maior parte da população brasileira já havia sido expulsa dos estádios há muito tempo, em razão dos problemas de violência e falta de estrutura ou condições mínimas de conforto (e, por que não, dignidade) para se assistir a uma partida in loco.

Da mesma forma, por mais que o discurso da elitização soe verossímil, causa espanto a ausência de apresentação de qualquer dado demográfico sobre o perfil do público dos estádios brasileiros ao longo dos últimos anos.

No mais, enxergar apenas no valor dos ingressos um possível processo de elitização é ignorar que, por menor que seja o custo para se entrar no estádio, uma partida em um estádio em um ponto afastado da cidade (como Morumbi, em São Paulo, Engenhão no Rio de Janeiro, ou mesmo a novíssima Arena Itaipava Pernambuco), que se inicie após a novela das 21h e, portanto, se encerra por volta da meia-noite, exclui uma parcela significativa da população que não pode/quer sofrer com a falta de opções de transporte público no início da madrugada, a falta de estacionamentos na região (para não mencionar os custos dos que existem, em sua maioria de maneira irregular), ou que simplesmente não pode se dar ao luxo de deitar-se próximo a hora de despertar, em pleno dia útil.

Não duvidamos que de fato um processo de elitização possa estar em curso no futebol brasileiro. No entanto, apenas repetir este mantra, como vem fazendo boa parte da imprensa esportiva, esvazia o debate e desvia a atenção de outros tantos temas que ajudam a explicar a falência do modelo de gestão esportiva no Brasil, tais como a farra das meias-entradas e das gratuidades (notadamente no RJ), o inadequado calendário Brasileiro que joga inúmeros jogos para o meio da semana, bem como a preponderância dos interesses da televisão em detrimento dos interesses dos torcedores, em torno do qual deveria girar o mundo do futebol.

 

A imagem de capa é da Agência Brasil.

Comments

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  • Filipe Jorge

    Excelente texto! Essa é mais uma “discussão” que as pessoas estão levando sem qualquer análise profunda, estatísticas, dados reais, etc..