Uma defesa espontânea de Neymar (#somostodoschatos)

“Cagação de regra”. Não é uma expressão bela, rebuscada, tampouco apropriada para se dizer em ambientes formais ou no almoço de família no domingo. Mas não há expressão que traduza melhor o que é a internet com seus blogs, podcasts e redes sociais: um monte de gente cagando regra.

Caga-se regra para tudo: desde o comprimento ideal dos pelos pubianos da capa de Playboy, até como deveria ser escolhido o novo Batman. Uns fazem isso de maneira debochada, como o Melhores do Mundo, enquanto outros realmente encaram isso como o cumprimento de um dever moral de apontar a luz para aqueles desprovidos de seu brilhante senso crítico e inteligência. Nós mesmos aqui no Segue o Jogo adoramos “cagar uma regrinha”, como em nossas discussões sobre como acabar com a violência no país, ou como fizemos de maneira jocosa neste texto sobre o papel dos jornalistas na novela Lusa.

O último alvo da cagação de regras foi Neymar. Não que esta seja a primeira vez que Neymar encontra-se nesta situação. E tampouco será a última.

Tudo começou com sua foto com filho e banana no Instagram no domingo à noite, quando, em apoio a Daniel Alves, lançou a campanha #somostodosmacacos .

A princípio as vozes foram elogiosas para a atitude do craque brasileiro. Celebridades, webcelebridades, subcelebridades, blogueiros, artistas e gente comum tiraram suas fotos comendo banana em apoio à campanha Neymarística. Até que se descobriu que a campanha havia sido bolada por uma agência de publicidade.

De repente todos se sentiram enganados, usados, ultrajados, revoltados e outros -ados que porventura agradem ao leitor. É evidente que houve ainda o fator Luciano Huck, mais odiado que Hulk na seleção Brasileira. Mas não foi isso que jogou contra Neymar – foi sua utilização de uma agência de publicidade.

Blogueiros e jornalistas questionaram a espontaneidade de Neymar, afirmando que tudo não passou de uma ação de publicidade. No campo dos movimentos sociais, criticou-se a escolha da réche-tégue #somostodosmacacos como símbolo de uma campanha despolitizada e alienante.

Será mesmo?

Nenhum dos inúmeros casos de racismo dos últimos meses teve tamanha repercussão. Talvez porque nenhum jogador teve a reação que Daniel Alves teve? É possível. Mas certamente a campanha de Neymar conseguiu trazer o assunto mais à tona do que a carta de Arouca ou a reunião de Tinga e Márcio Chagas com a presidente Dilma.

Ao falar “somos todos macacos”, a lógica era simples: se somos todos macacos, somos todos iguais. Ou, em outras palavras, se somos todos macacos, ninguém é macaco.

Acaba-se com o racismo através de uma campanha no Instagram? Não. Mas também não se acaba com a homofobia ao se punir uma equipe cuja torcida usa “bicha” como forma de ofensa ao jogador adversário. Isso não significa, no entanto, que o assunto –e a solução – não deva ser debatido.

Neymar foi vítima de racismo na Espanha há poucas semanas. Caso se calasse, seria criticado. Optou por agir, mas preferiu fazê-lo de maneira profissional, visando causar o maior impacto possível, gerando tanto ou mais barulho que aqueles que o ofenderam. Contatou sua agência de publicidade e a campanha #somostodosmacacos estava criada, aguardando o momento oportuno para jogar luz e fazer barulho sobre as abjetas manifestações de racismo que se fazem presentes em estádios de todo o mundo.

Pessoalmente, não acho a campanha brilhante, mas considero completamente injustas as críticas direcionadas a Neymar.

Teria sido a carta de Arouca mais espontânea? Se há profissionais por trás, mesmo que a ideia tenha partido de Neymar, não há espontaneidade?

Talvez o que desejem é a espontaneidade que tinham seus companheiros na época de Santos, quando em polêmica sessão de Twitcam o goleiro Felipe soltou a seguinte pérola a um torcedor Santista: “Aí fera, o que eu gasto com o meu cachorro de ração é o teu salário por mês. Então não fode!”

De repente, preocupar-se em ser profissional parece mais grave que jogar uma banana em Daniel Alves…

 

 

Ouça mais sobre o caso no Podcast Segue o Jogo #19!

 

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