Custos irrecuperáveis

Emprestar um jogador pagando parte do salário não é o fim do mundo. E pode ser uma boa decisão.

No futebol brasileiro, poucos erros parecem ser mais graves que pagar salário de um jogador que não mais faz parte do clube. Se ele passa a jogar em um rival, então, a corneta se multiplica. E aí se ele marcar um gol na antiga equipe

Sinal de desperdício, em vista do alegado constante pauperismo das equipes nacionais, de má gestão de grupo e de irresponsabilidade na hora da contratação ou da renovação contratual. Sinal, ainda, de burrice coletiva e incapacitante. Todos fatores que se somariam para justificar e evidenciar o atual descalabro administrativo dos clubes.

Nenhum dos itens supracitados é, em si, incorreto. Ainda assim, eles não servem para explicar o porquê de o expediente ser cada vez mais utilizado, a ponto de acarretar idas e vindas no Regulamento Nacional de Registro e Transferências de Atletas de Futebol, referente à proibição contratual do atleta enfrentar seu antigo time.

Considerar essa modalidade de empréstimo apenas como reflexo de uma crescente incompetência dos cartolas leva, portanto, a simplificar os processos da gestão de um clube e a ignorar importantes avanços que vêm sendo forçados realizados (ainda que o caminho seja incipiente).

Sabe-se que as equipes brasileiras vivem em perene ebulição e contam com as mais criativas soluções a problemas imediatos, mas em regra, ao firmar um contrato com um jogador, o clube compromete-se, naquele período, a dispender mensalmente o valor combinado. Considerando o grande número de empregados dentro de um time de futebol, ele se planeja estabelecendo um valor no Planejamento de Orçamento previsto para o ano. A cada novo contrato, o montante a ser pago aumenta e, por consequência, o total disponível é reduzido, de forma que um clube organizado sabe, de antemão, quanto têm disponível para a chegada de outros jogadores. Claro que o valor do orçamento é dinâmico e pode ser majorado ou diminuído de acordo com outras contas da equipe, mas após o ajuste, a mesma lógica permanece: os contratos existentes são obrigações inescapáveis dentro do orçamento. Se um atleta sai das graças de um treinador, independente do motivo, as obrigações do clube para com ele persistem. Não deixa de ter que pagar o salário (e outros valores) por não desejar mais utilizá-lo, ainda que esse afastamento, simbólico ou concreto, possa ser transitório e revertido no futuro.

Dada a decisão da equipe em não utilizar o jogador – ou não o utilizar de maneira efetiva – restam ao clube algumas alternativas:

  1. Ele pode manter o jogador em seus quadros, respeitando suas obrigações até o fim do contrato, podendo modificar sua decisão de não o utilizar;
  2. Pode escolher rescindir imediatamente, mediante pagamento da cláusula compensatória desportiva e outros haveres, cujos limites são determinados pela Lei Pelé:

Art. 28, §3º – O valor da cláusula compensatória desportiva a que se refere o inciso II do caput deste artigo será livremente pactuado entre as partes e formalizado no contrato especial de trabalho desportivo, observando-se, como limite máximo, 400 (quatrocentas) vezes o valor do salário mensal no momento da rescisão e, como limite mínimo, o valor total de salários mensais a que teria direito o atleta até o término do referido contrato.

  1. Pode ceder o jogador a outra agremiação, de forma temporária ou permanente, diminuindo seu dispêndio salarial ao menos temporariamente (segundo o acordado entre as partes).

Em atenção ao item 3, dada a obrigação salarial ser inafastável de forma unilateral, qualquer diminuição no montante a ser pago consiste em economia por parte do clube que empresta o jogador. Ao deixar de pagar parte do salário do atleta cedido, o clube tem sobra orçamentária para buscar um reforço que seja realmente utilizado na equipe ou para economizar no total de gastos. Isso, claro, se não for capaz de negociar e receber valores pela transferência, mas, aí, é preciso combinar com os russos.

Para poder qualificar a decisão de emprestar, contudo, deve-se partir da simples premissa que ninguém é contratado para dar errado. Os clubes fazem diversas apostas ao construir seus elencos (e estamos falando de 20, 30, 50, 100 jogadores profissionais), mais ou menos arriscadas, mais ou menos custosas, e que ou vão dar frutos ou vão gerar obrigações indesejadas para o futuro. Ou seja, emprestar o jogador e pagar parte do salário pode ser resultado de uma boa decisão de um clube, quando o erro – ou infortúnio – pertence ao passado, tal qual um custo irrecuperável que formata as decisões futuras, mas não pode ser revisitado.

Essa linha de pensamento não é uma novidade. Em 2014, Ronaldo Ximenes, enquanto diretor de futebol do Corinthians, argumentou:

São apostas. Isso faz parte do futebol. Nem sempre dá certo. Quando assumi o futebol recebi uma herança que não é das melhores. O que a gente conseguiu fazer foi emprestar para conseguir dividir o pagamento com outros clubes e não ficar tão pesado para o Corinthians. Se a gente não tivesse emprestado, o custo seria ainda maior.

Ainda que exista certo avanço analítico, a explicação parece ter caído em ouvidos moucos, considerando os termos utilizados ao renovarem críticas quando descobrem os gastos com jogadores emprestados. Conforme noticiado recentemente, Carlinhos, lateral-esquerdo do Internacional, mantém-se vinculado ao São Paulo e tem parte dos salários pagos pela equipe paulista. Esta, por sua vez, beneficia-se ao dividir o ordenado de Cícero com o Fluminense. Já a equipe gaúcha responsabiliza-se por percentual do contracheque de Anderson, cedido ao Coritiba. Desse modo, a roda gira e provavelmente todos clubes possuem atletas em semelhante situação (aqui, exemplos passados de Corinthians, São Paulo e Palmeiras).

Pato

Nem mesmo o mais estúpido emblemático caso escapa dessa análise. A negociação que envolveu Corinthians, São Paulo e Alexandre Pato trouxe benefícios a todas partes, o que dificilmente pode ser considerado um mau negócio. Contratado a peso de ouro pelo clube alvinegro em 2013, para qualificar o time que acabara de ser campeão mundial, pato Pato teve suas idas e vindas no alvinegro até o famigerado pênalti. Depois disso sua situação no Corinthians degringolou até que a inesperada troca por Jadson acontecesse. Como resultado, o Corinthians diminuiu seus gastos com salários devidos a Pato e obteve, assim, fôlego para contratar um jogador que lhe foi mais útil (para não mencionar que a liberação do atual camisa 77 envolveu diretamente o negócio de empréstimo). A contratação pode não ter sido, em análise ex-post, um bom negócio, mas há pouco o que criticar no empréstimo ao coirmão paulista, especialmente ao ser analisado com o distanciamento temporal necessário.

Ao torcedor que brada de forma contrária a esses negócios, argumentando pela moral ofendida ou suposta incompetência da cartolagem, atenção. Um negócio racional e positivo ao clube pode estar escondido debaixo de alegações rasas.

Faça sua parte: cornete, discuta, comente, agradeça por determinado jogador ter saído de seu time.

A foto de capa foi retirada do sítio do Portal Guaíba e, provavelmente, é original do Globoesporte.

 

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