O Corinthians, sua torcida, a crise e o futuro

Como impedir o efeito halo na avaliação das torcidas organizadas, punir criminosos e sair fortalecido da crise

Ao longo da segunda metade da década de 1930, pouco havia o que questionar quando Manuel Correcher bradava: “con razón o sin razón, Corinthians siempre tiene razón”.  O ex-presidente (1935-1941), de nacionalidade espanhola, foi removido de seu cargo às vésperas do projeto de nacionalização do desporto na Era Vargas, cuja mais importante repercussão foi a renomeação forçada do Sport Club Germânia para Esporte Clube Pinheiros. Antes disso, contudo, o ibérico deixava claro que a força e a vontade do time do Bom Retiro deveriam ser respeitadas em qualquer situação.

A frase, cunhada com um certo grau de pretensão, de arrogância e de superioridade tão inerentes ao bom Corinthiano, demonstra um relacionamento para com o time que ultrapassa as barreiras do torcedor usual. Incentivo irrestrito e apoio incondicional são obrigações do aficionado alvinegro ao acompanhar suas partidas (assim como uma proibição tácita – às vezes tornada explícita – quanto à cor verde da vestimenta no estádio). Ainda, rejeita-se prejudicar o time durante as partidas, de acordo com as regras de conduta, seja nos bons momentos, ao inibir o grito antecipado de “gol”, seja nos maus, ao impedir vaias durante os 90 minutos.

Isso não significa que não existam cobranças. Não raras vezes, depois de uma derrota, ou depois de mais um empate, o apito final serve de autorização para vaias, xingamentos e palavras de ordem. Tudo dentro do esperado em uma relação de consumo e dentro do direito de quem paga para acompanhar o time e que espera coisas muito além que ser ou não ser o primeiro.

Tampouco são incomuns os excessos, seja dentro do estádio, seja em ambientes externos. O mais recente episódio, de gravíssima natureza, viu aproximadamente 100 criminosos invadindo o Centro de Treinamento Joaquim Grava às vésperas de uma irrelevante partida pelo irrelevante Campeonato Paulista de 2014, em peripécia que terminou com impunidade agressões a empregados do CT, celulares e materiais de treino furtados e invasão e dano de propriedade privada, assim como ameaças de agressão aos atletas do grupo, obrigando-os a se esconder até que a situação fosse controlada.

As repercussões ao delito foram as mais diversas. Houve os que apoiaram o fato, como expressão usual e merecida da insatisfação para com os jogadores, assim como aqueles que rechaçaram a violência, mas pensam que a cobrança era necessária, pelo nível de performance dos atletas. E, por fim, houve quem tratasse o fato como abjeto e incompatível com os níveis mínimos de civilidade.

O último grupo parece concentrar, felizmente, a imensa maioria (ou talvez a imensa maioria daqueles com quem esse escriba tem contato), o que não livrou as páginas de jornais e comentários na internet de novas controvérsias. As reações de atletas, clubes, torcidas organizadas, torcedores não-organizados e agentes de segurança pública tornaram-se pauta constante para a imprensa, assim como as relações entre esses players.

Das críticas à atuação da força policial à exigência de ruptura absoluta do clube com as torcidas organizadas, os nuances de caminhos disponíveis ao Corinthians para contornar a crise descaracterizam um sugestivo preto e branco que está em voga.

Na parte simples da equação, o clube deve:

  • colaborar de forma decisiva com as investigações policiais e manter-se de forma atuante na exigência de punições a todos os envolvidos, o que parece estar acontecendo;
  • interromper a política de diálogo condicionado entre as lideranças das torcidas e do elenco, já que sua discutível função de difusor de pressão e de condicionante comportamental está comprometida;
  • exigir reparação pelos danos perpetrados pelos criminosos;
  • punir aqueles que façam parte do quadro associativo ou do programa de Fiel Torcedor e tenham cometido crimes contra o Corinthians e
  • identificar a participação das torcidas organizadas no evento e exigir colaboração e punição interna dos invasores e de quem possibilitou apoio logístico.

Mais complexa, contudo, é a parte final do problema. Complexa porque significa modificar a relação do clube com as torcidas organizadas e seus membros. Se, num momento de emergência e de abusos o anseio pela ruptura absoluta é compreensível, alhear parcela ativa e atuante de seus aficionados pode acarretar desperdício de potencial de recursos e fracasso de seus objetivos originais (conforme discutido pelo espnzete Mauro Cezar Pereira aqui e aqui).

Deve-se atentar também que parte do que se chama de promiscuidade entre clube e organizadas nada mais é que a filiação de um associado do clube às agremiações de fãs. Andrés Sanches (Pavilhão 9) e Raul Corrêa da Silva (Gaviões da Fiel e Camisa 12), membros do atual grupo dirigente do Corinthians, são exemplos de fundadores das torcidas organizadas com ativa participação na política do clube, o que se dá de forma irrepreensível.

Os eventos recentes (ou nem tão recentes) mostraram que a liberalidade entre as torcidas organizadas e os clubes não está dando bons frutos. Centro de Treinamento, caso Sheik, Brasília e Oruro foram os principais eventos negativos dos últimos 12 meses, com significativo prejuízo financeiro e de imagem ao Corinthians. Ainda pior, no dia 5 de fevereiro, as torcidas organizadas tentaram reprimir os que não seguiram as instruções para um protesto a ser realizado no dia. Se foi contra o time, contra a “perseguição sofrida” ou contra as acusações às agremiações, ninguém soube explicar, mas de concreto tivemos que torcedores foram impedidos de torcer para o seu time por facções de aficionados que queriam manter-se em silêncio.

Ao explicitar a dicotomia comum x organizado, a crise geral pela qual passa o clube põe em risco a consolidação de relacionamento com as torcidas. O bem sucedido programa de Fiel Torcedor foi um dos fatores capazes de turbinar a média de público e a receita do Corinthians, permitindo sonhos ainda mais altos com a Arena a ser entregue em Itaquera. Tudo isso pode, porém, ser interrompido pela percepção de privilégios dados aos organizados e que os mais básicos direitos de torcer estão sendo suprimidos por quem se acha mais importante que o clube.

Para reverter o quadro, seria importante que o Corinthians passasse a:

  • extinguir os preços especiais do Fiel Torcedor para as torcidas organizadas, igualando o valor da anuidade e dos ingressos com aqueles destinados aos demais planos da mesma área;
  • lutar pelo fim da reserva de setor, posto que determinado pela polícia e pelo Ministério Público Estadual, abrindo a arquibancada amarela a qualquer um;
  • iniciar a venda aberta de ingressos para visitantes a qualquer torcedor, interrompendo a reserva concedida às organizadas;
  • empenhar segurança interna para coibir atos violentos e repressões por parte dos organizados, identificando e retirando do estádio quem se exaltar;
  • condicionar a autorização à entrada das organizadas e qualquer diálogo à cooperação com investigações de crimes contra o Corinthians e à identificação e punição de seus autores e
  • regulamentar as relações comerciais entre o clube e organizadas, em especial referente ao uso da imagem do clube para lucro privado, por parte das agremiações de torcida. Ou se proíbe totalmente o uso da marca ou se encontra um acordo para o pagamento de direitos ao clube.

Mais eficazes que fazer uma mea culpa inócua e incorreta sobre os presos de Oruro ou exigir que alguém que não estava no local desse voz de prisão a mais de 100 pessoas, essas medidas permitem ao clube se resguardar dos abusos perpetrados pelos membros das torcidas organizadas ao mesmo tempo que ele consegue aproveitar a força total de seus torcedores e os benefícios de se ter as agremiações torcendo com todo seu preparo e capacidade.

Se as possibilidades de crescimento econômico do futebol são grandes, conforme apresenta Pedro Tregrouse, o caminho à frente do Corinthians também pode vislumbrar significativo crescimento. Resta ao clube saber aproveitar as oportunidades que surgem para demonstrar sua força, assim como Correcher fazia na primeira metade do século XX, o que inclui desenvolver e regulamentar sua relação com seus torcedores. De qualquer tipo.

Concorda com a análise? Comente, discorde, cornete ou pratique o espírito de anti!

Ps1. Muitas das medidas aqui citadas podem ser encontradas, de alguma forma, na petição online pelo fim dos privilégios das torcidas organizadas

Ps2. Todas as palavras gentis e as não tão gentis aqui retratadas em relação às torcidas, organizadas ou não, não são exclusividade do alvinegro paulista e poderiam ser facilmente adaptadas às demais equipes desse Brasil inteiro (o que seria feito com uma boa quantidade de piadas). Nenhuma tem exclusividade dos benefícios e dos problemas que o futebol apresenta em sua relação com as massas.

Foto de capa foi retirada do sítio do Corinthians, com créditos para Rodrigo Coca/Ag. Corinthians

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