[Guest Post] A verdadeira copa das copas

salvador

Talvez nem a Nike tenha conseguido ser tão clichê, mas o fato é que tá rolando uma Copa do tamanho de um bonde aqui pros lados do Pelourinho. Ali no Terreiro de Jesus uma meia dúzia de desocupados resolveu ocupar o espaço com quatro carcaças de coco verde e rechear o miolo com um campo de futebol imaginário, com mais ginga que linhas divisórias.

Sei que é piegas e até um tanto Jeca, mas acabei ficando emocionado com a cena: Cada um dos times tinha mais idiomas diferentes que muitas sessões da ONU. Que eu consegui identificar, tinha alemão, argentino, mexicano, holandês, esloveno e, óbvio, os mendigos do Pelô, donos do campo e da bola.

Claramente ninguém ali se conhecia até pouco mais de meia hora. A coisa simplesmente aconteceu: Algum gringo mais abusado fez uma mímica pedindo pra jogar e pouco tempo depois já tínhamos essa seleção do mundo. Um monte de gente que antes só olhava, invejando os peloteiros, largou de vergonha e resolveu gritar “próximo”, ou qualquer outra tradução que possa existir, mesmo que na linguagem dos sinais.

A mímica, aliás, era a coisa mais engraçada do jogo. Como ninguém ali fazia ideia do que o outro estava falando, a cada jogada polêmica era um festival de gritos incompreensíveis e muita gesticulação para dizer: Quem fizer, leva; Cinco jogadores de cada lado; Time A sem camisa, time B com camisa; Foi Pênalti! Não, foi fora da área (?!?!). O lance mais estranho foi quando eles ficaram uns cinco minutos discutindo se o goleiro espalmou por cima do travessão ou frangou vergonhosamente (lembrando que não existe, para olhos normais, nenhum travessão).

Mas no fim, tudo funcionava muito bem. A linguagem dos campinhos de improviso é mundial, não precisa passar na TV para compreender. É tudo no instinto de boleiro que mora em cada canto do planeta, e não só nas nossas vielas, como arrogantemente a gente vive pensando.

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