Colômbia x Grécia, a invasão amarilla

O sorteio
Como bom fã de futebol (e um pródigo administrador das minhas finanças), me inscrevi para o sorteio dos ingressos no primeiro momento, optando pelo pacote padrão, abertura, encerramento, partidas em SP e jogos aos fins-de-semana em cidades próximas. Fui contemplado apenas com um ingresso, C1xC2, no Mineirão, dia 14/06. Caramba, Mineirão, dois cabeças de chave!, tenho chance de ver Alemanha, Argentina, Espanha ou Uruguai enfrentando Holanda, Itália, Portugal, pensei comigo. Daí, com o sorteio, a decepção. Colômbia x Grécia. Ainda havia a chance de ver Falcao Garcia jogar, era meu alento. Não, nem isso consegui. Copa é copa, e levei uma bronca de um amigo colombiano por não estar animado para o jogo, somos hermanos de sulamerica, afinal, e los cafeteros sabem festejar.

Pra BH? É de Cometão que vamos!
A Rodoviária do Tietê estava lotada, como sempre, mas havia algo diferente. Enormes réplicas das taças e bandeiras e camisas amarelas, vermelhas e azuis circulavam em grupos pelo saguão. Sim, os colombianos chegaram. E, com eles, o sentimento de copa, que até o momento tinha sido só pela TV. Na fila para pegar a passagem do Cometão, já havia arranjado compañia para a madrugada na rodoviária de BH e o caminho até o Mineirão. Cheguei cedo à capital mineira, 5h30 da manhã, conversei com mais colombianos e um mexicano (nascido na Grécia), sempre muito animados, a Copa realmente estava começando para nós.

O trajeto até o estádio
O Mineirão fica na Pampulha, um pouco distante do centro de BH, e mais ainda da região da Savassi, de onde havia planejado minha saída com o Saulo, d’Os Olímpicos. Doutrinados que fomos, optamos pelo transporte público. Fomos ao Terminal Copa, de onde saiam ônibus exclusivos para o estádio. Quinze reais, ida e volta, bora lá. Não sei se por falta de planejamento ou simples incompetência, a BHTrans não conseguiu organizar o trajeto. Voltas dentro de bairros, avenidas completamente congestionadas, faixas exclusivas (à FIFA? Não sabemos até agora) inacessíveis, tudo nos lembrava da paulistana Avenida Rebouças, numa sexta-feira, sete da noite, com chuva. Ainda, imaginávamos que o ônibus, destinado exclusivamente ao evento, nos deixaria próximos ao estádio, em um local com sinalização adequada. Como diria Compadre Washington, sabíamos de nada, e fomos largados, nós e o mar amarelo, no meio de um bairro próximo, na rua, sem qualquer orientação para o estádio, quase duas horas depois (de um trajeto que deveria tomar 40 minutos, no máximo). Tivemos que perguntar a funcionários da BHTrans e da polícia qual o sentido para os portões, já que não havia indicação. Meu portão era o D, oposto ao B, do Saulo, peguei à esquerda na avenida e corri, faltava cerca de meia hora para o apito inicial.

O Mineirão
O estádio da Pampulha é imponente, tem história. Mas o padrão FIFA também não estava presente na entrada. Sinalização confusa, voluntários que se esquivavam, nos encaminhando aos orientadores para qualquer dúvida. O esquema de transporte mostrou-se péssimo, dado o grande número de pessoas que ainda tentava entrar no estádio. Filas e divisórias começavam sem indicação alguma. Escolhi uma que parecia mais rápida, e entrei. Andou rápido, até, mesmo com a passagem obrigatória pelo detector de metais e raios-x, como em aeroportos. Passando pela revista, mais informações confusas sobre onde ficava o tal portão D. Corri novamente. A passagem pela catraca foi rápida, mas, pela terceira vez, informações conflitantes (agora sobre o tal setor 323) e, pela terceira vez, corri. Tomei assento ao lado de um atleticano devidamente trajado (que me confidenciou que não haveria comida no estádio, pois não entregue a tempo, e os chips haviam acabado), próximo a um cruzeirense não menos vestido, 1×1 no clássico mineiro, e percebi que, fora eventuais camisas de times brasileiros, poderia estar em Bogotá ou Medellin, tamanha presença e festa dos cafeteros.

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O primeiro tempo
Começa o hino colombiano, cantado a plenos pulmões por mais da metade do estádio. Acaba o hino protocolar, continua o hino a capela, mostrando que BH era a capital da Colômbia, mesmo com o segundo turno das eleições presidenciais em curso (ao longo da partida, José Pekerman, o argentino treinador da seleção amarela, já se mostrava um forte candidato a ganhar as eleições, previsão confirmada ao final). O hino grego transcorre normalmente, sem vaias (descobri, depois, que o Saulo, do portão B, não conseguiu chegar a tempo). Gol no início de jogo, explosão nas arquibancadas, Colombia tene que ganar!, que se seguiu durante o resto do primeiro tempo. Um grupo de cruzeirenses resolveu cantar músicas de suas organizadas, mas foram abafados pelo resto da torcida.
Faltando cinco minutos para o fim da etapa inicial, resolvi comprar uma cerveja e almoçar o famoso feijão tropeiro, um dos pratos tradicionais que foi permitido manter no cardápio FIFA, junto com o acarajé na Arena Fonte Nova.

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O intervalo, o segundo tempo, o gol
A fila para o bar era grande, desorganizada e vagarosa. E só era possível comprar bebidas lá, quem quisesse comer teria que se deslocar para o outro lado do estádio, em outro anel, o 1 (o tropeiro, descobri depois, era servido em bandeja de marmitex, mandando o padrão FIFA para as cucuias). Vagarosa que só, vi o segundo gol, aos oito minutos, pela TV que estava no bar. Peguei minha cerveja, e fiquei próximo ao túnel de entrada para a arquibancada, de pé.

O segundo tempo, o egoísmo
A etapa final continuou muito boa, especialmente com a melhora da Grécia. Um grupo de brasileiros tentava, sem sucesso, organizar uma ola, mas divertindo a torcida próxima. E, assim como ocorreu na abertura, o ridículo canto “eu sou brasileiro, com muito orgulho”, tomou o estádio (seguido de um hei, Dilma…, que não cabe aqui discutir). Babaquice, pra falar o mínimo. O incômodo de diversos colombianos era visível. A festa era deles, e tentamos roubar a cena. O mesmo viria a ocorrer no espetacular Itália x Inglaterra, em Manaus. Não gostamos de futebol, gostamos de ganhar, não gostamos de receber, queremos ser protagonistas.

A saída
Se a chegada foi confusa, a saída foi um caos. Não havia placas indicando avenidas ou onde estaria o ônibus que pegamos na ida (o bilhete dava direto aos dois trechos), tampouco orientadores. Tivemos que recorrer a policiais, que nos informaram que o ônibus pra Savassi sairia de tal lugar. Seguimos, como parte grande da torcida. Ao longo do caminho, de quase meia hora, nenhuma orientação ou placa, novamente. Chegamos ao MOVE, o sistema de ônibus rápidos de BH, para descobrir que os ônibus do Terminal Copa não estavam lá. Fila enorme para comprar o bilhete especial, fomos informados que os tais ônibus estavam do outro lado do estádio. Inviável andar mais uma hora, ficamos pelo MOVE mesmo.

A festa
Entramos no MOVE, seguidos de um mar de colombianos em um neto de gregos, todo paramentado e constrangido na mesma intensidade. Alguns puxavam cantos, outro sacou uma caixa de som e colocou salsa pra tocar. Alguns, ainda, faziam referência aos 5×0 aplicados à seleção de Maradona nas eliminatórias da Copa de 1994. Se a idéia de ônibus balada um dia der certo, vai ser assim. Fiquei sabendo que, na noite anterior, os bares e ruas haviam sido tomados por ritmos latinos. Fui jantar em um restaurante tradicional mineiro, e a festa continuava. Tutu, galinha ao molho pardo, pão de queijo e até um arroz com pequi devidamente roubado de Goiás substituiram os tamales e salsas criollas. Não pude ficar para a noite pós-jogo, mas tenho certeza que Bello Horissonte vai se lembrar por muito tempo da invasão amarilla.

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