A Ceni o que é de Ceni

Na máquina de moer técnicos do Brasil, a idolatria tão somente assegurou alguns meses a mais para o ex-treinador do São Paulo

 

Nestes tempos de clubismo über alles, é difícil saber quando alguém que fala de um time que não é o seu o faz com seriedade, com sincero objetivo de galhofa ou simplesmente com o ódio característico dos dias atuais. Muitas vezes o emissor mistura esses objetivos, mas o receptor, escaldado com provocações e críticas passadas, assume o pior, por mais construtiva que seja a intenção original (sem impedir a necessária pitada de zombaria).

Quando se fala de uma personagem como Rogério Ceni, as reações são ainda mais exacerbadas. Sua longevidade e identificação com uma única agremiação intensifica o clubismo ou o sentimento de rivalidade dentro de cada um de nós. Assim, críticas fundamentadas misturam-se a birras antipáticas, digladiando-se com a compreensível defesa incondicional do histórico atleta (não se veste uma camisa 1238 vezes impunemente – e o distanciamento temporal ainda parece longe de ser realidade). A longa carreira de jogador confunde-se com o incipiente início como técnico, de modo a inebriar qualquer percepção dos acontecimentos de 03/07/2017.

Tudo isso para fundamentar um texto meu, um Corinthiano, um anti (já que no futebol tudo se copia), com todos motivos e ressalvas que se imagina em relação a um ídolo adversário.

Isso posto, é possível afirmar: Rogério Ceni foi contratado para servir de escudo à presidência Leco no São Paulo Futebol Clube. Identificação com o clube, torcida personalista pelo indivíduo, histórico de comportamento competitivo e gana para desenvolver a nova carreira (como visto na rápida preparação a que ele se propôs), entre outras características, fizeram do ex-arqueiro candidato ideal para assegurar um mínimo de estabilidade ante um cenário tricolor bastante alarmante, envolto em uma biruta política, administrativa e futebolística que gira cada vez mais forte no Estádio do Morumbi (para evitar a falsa polêmica de Morumbi-Vila Sônia, distritos e Jardim Leonor, subdistrito/bairro).

Entradas e saídas recorrentes de atletas  ao longo do campeonato (raramente com manutenção de nível técnico e de estilo de jogo), turbilhão político pós-renúncia de Carlos Miguel Aidar (o que resultou em reestruturação estatutária recente) e dirigentes pouco experientes em cargos centrais foram parte do incrível suporte dado a Rogério Ceni ao longo dos seus 6 meses de estágio experiência.

Ceni tomou decisões equivocadas, teve raros resultados positivos e muitos negativos (dentro do que se espera como normalidade), foi eliminado de competições em que era o time inferior (Paulista e Copa do Brasil) e também quando tinha superioridade técnica (Copa Sul-Americana). Tentou propor inovações táticas (não confundir com ter êxito na implementação), e, finalmente, deu match com a ZR do Brasileirão. Pecou – talvez seu maior erro – em não ter o comportamento esperado em suas declarações e coletivas. Tornou-se, na visão da imprensa e do público, uma personagem arrogante,  incapaz de perceber os próprios insucessos e de reconhecer a superioridade alheia. Foi seu maior descuido, já que nossa imprensa muito permite a um “encantador de serpentes”, e ao público são paulino cada escusa proferida pelo ex-goleiro servia apenas para amparar críticas de terceiros. Com mais cuidado – e menos sinceridade – o apoio ainda poderia ser geral (e o Trivela reconstituiu a mudança temporal).

Sem grandes ilusões, era tudo o que se esperava de um técnico iniciante, escudado por assistentes estrangeiros e também de pouca experiência, em seus primeiros meses. Erros e acertos, avanços e retrocessos, inovação e conservadorismo, não pode ser uma surpresa que esses elementos se alternaram sobremaneira ao longo da fugaz trajetória.

Contudo, tampouco surpreende que a ação da diretoria tricolor tenha sido essa. A defesa do técnico e a promessa de manutenção feita pelo Presidente do clube em 30/06/2017 ruiu 3 dias depois. A demissão do técnico que deveria ser a ponte para o futuro do clube, na 11ª rodada do Campeonato Brasileiro, é sinal que os gestores do time não sabem o que querem.

Assim, a diretoria são paulina não merece mais do que uma ferrenha torcida para que entre, de vez, no espiral do rebaixamento, conhecido por praticamente todos que, ameaçados, acham que agir em pânico e histeria é o melhor caminho. Talvez o clube se safe, mas certamente não merece destino melhor que a disputa da Série B em 2018 (não é o fim do mundo e não corrigiria a virada de mesa de 1990/91).

Poucos durariam o tempo que durou. Mas não sei se alguém faria mais do que Ceni fez até agora.

Faça sua parte: cornete, discuta, comente, inicie uma campanha VOLTA, CENI.

 

A foto de capa foi retirada da página de Cosme Rímole, no que o texto se desculpa, sem indicação de autor.

Comments

comments