Camisa que enverga varal

Desrespeitando a torcida, ignorando a história e mostrando fraqueza em um único ato

 

A tradição manda: ao jogar em casa, o time local utiliza o uniforme titular e o adversário se adapta a ele. Se possível, vai usar seu fardamento principal; senão, lançará mão do uniforme alternativo. Tudo de acordo com artigo 5.1 do regulamento sobre equipamentos da FIFA.

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Uniforme reserva como mandante, no Pacaembu

Dentre os paulistas, o Corinthians joga de branco e calções pretos no Pacaembu; o Juventus soergue-se com seu manto grená; o Palmeiras usa verde no Palestra Itália; o Santos veste-se todo de branco na Vila Belmiro; e o São Paulo desfila de branco com as listras tricolores no meio da camisa. Já a Portuguesa, ninguém sabe bem o que ela faz…

Não é apenas um hábito ou uma superstição. Jogar com seu uniforme principal diante da própria torcida significa respeitá-la, usando as cores que são mais queridas às massas. Significa também impor-se frente ao adversário, mostrando que a contenda não será apenas contra um agrupado de 11 jogadores, mas sim contra toda uma história contada com as cores do clube. É uma maneira de apresentar-se ao mundo, permitindo imediata identificação do time, hoje e no futuro.

Em 17 de agosto, vimos uma equipe de São Paulo entrar no campo, diante de sua torcida, portando a vestimenta alternativa. No jogo Palmeiras x Paysandu, no Estádio municipal Paulo Machado de Carvalho, o alviverde da Turiaçu, vestido totalmente de branco, parecia ser o time secundário da partida. Não no futebol, em que pese a fase palmeirense, já que desde os tempos de Robigol e de Iarley que o Papão da Curuzu não assusta ninguém.

Que calor…

Campeonato Brasileiro 2013 - Série B - Boa Esporte Clube x Palmeiras

Uniforme reserva, devido ao calor

Alguns dias depois, isso se repetiu. Não era dentro de seus domínios, mas o Palmeiras resolveu enfrentar o BOA, de Minas Gerais, em 24/08, com a mesma escolha de camisa. Não havia nenhum motivo aparente para deixar o tradicional pano verde de lado.

Ao menos era isso que nós, pobres mortais, pensávamos.

Por determinação recente da intelligentsia do Palmeiras, em decorrência do calor e de seus efeitos negativos à performance do elenco, ordenou-se que o uniforme preferencial seria, em partidas disputadas durante a tarde, o alternativo, branco. Enquanto nas partidas disputadas à noite, não sujeitas aos raios do sol, o verde clássico estava autorizado a aparecer.

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Um Derby de uniformes reservas

Ainda que seja inverno. Ainda que não esteja assim quente. Ainda que não haja

nenhum respaldo de fisiologistas quanto a uma melhor performance com cores claras. Ainda que seja ridículo.

Isso significou a institucionalização de uma prática adotada anteriormente, em especial contra o seu coirmão e arquirrival. Em 28/08/2011, por exemplo, as duas equipes disputaram o turno do Campeonato Brasileiro com uniformes reservas. Talvez seja tudo que um Derby em Presidente Prudente mereça, mas a razão da escolha (mais uma moderna estratégia de Luiz Felipe Scolari) foi obrigar os Corinthianos a vestir uniformes pretos, o que os faria sofrer com o calor.

A reserva e a terceira via

1977

Fazendo história com a segunda camisa

Pode-se argumentar que o uniforme reserva também faz parte do patrimônio cultural de um time. Quem não identifica a camisa listrada do Corinthians com o gol de Basílio, o pé-de-anjo, na final do estadual de 1977? Ou os 3 gols de Raí, decidindo o estadual de 1991 ainda no primeiro jogo da decisão, vestindo as listras verticais?  Para não falar do caso santista, cujo uniforme 2 foi tão emblemático que passou a ser considerado o principal.

Por aqui, os uniformes reservas dos times brasileiros têm peso institucional semelhante aos modelos principais. O São Paulo chega a regulamentar ambos por meio de seu estatuto, impedindo toda e qualquer mudança mais significativa de design. Outros clubes inovam a cada lançamento, mas sem descaracterizá-lo, sob a ameaça de descontentamento por parte da torcida.

Históricos, mas limitados em novidades, os uniformes reservas envolvem os clubes numa quase literal camisa-de-força em termos de mercado. Semelhantes aos anteriores, os modelos lançados não vendem de acordo com seu potencial, restringindo uma fonte de renda que seria muito bem-vinda.

Para contornar isso, iniciou-se a confecção de camisas comemorativas, especiais ou, simplesmente, de terceiros uniformes. Sempre com alguma justificativa histórica, os clubes procuram homenagear fatos do passado, uniformes antigos, a torcida, uma caneta marca-texto ou qualquer coisa que os permita inovar e vender mais e mais. Não por acaso, mesmo diante de ceticismo e da estranheza inicial, esses lançamentos costumam estar entre os de maior êxito.

A cláusula Gil dos uniformes

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Flamengo e suas cores originais

Até aí, perfeito. Vale de tudo por maior faturamento e é feito há muito tempo na Europa, sustentando bons resultados financeiros. Mas não sem diferenças. No velho mundo, inexiste a rigidez do segundo uniforme histórico. O primeiro é mantido

de acordo com a tradição, mas o segundo pode sofrer qualquer mudança.

O Real Madrid jogou, nas últimas temporadas, de azul, verde, preto, vermelho, roxo. O Liverpool, de preto, cinza, branco, amarelo e coisas piores. Por sua vez, o Barcelona já inovou com salmão, azul-turquesa, amarelo, laranja e alguns horríveis demais para serem descritos. Mesmo a Seleção Alemã alterou sua camisa 2, de verde para vermelha, por sugestão de Jürgen Klinsmann e, na última Copa do Mundo, para preta.

Dos hábitos europeus, faltou só copiar o óbvio.

Mesmo um modelo histórico e bem aceito de uniforme alternativo, ele não é o uniforme principal. Diante de sua torcida, um time usa as cores tradicionais. É impensável que Juventus, Manchester United, Chelsea, Milan, Bayern, entre outros, joguem em seus respectivos estádios sem utilizar o mais conhecido dos uniformes da equipe.

Por aqui, contudo, o respeito ao torcedor fica de lado, minimizado pelo medo do calor, pela oportunidade de lançamento ou por alguma comemoração fajuta.

Só isso explica as fotos seguintes:

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Corinthians, no Pacaembu

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Palmeiras, no Parque Antártica

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Santos, na Vila Belmiro

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São Paulo, no Morumbi

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Vasco, em São Januário

Nada contra uniformes comemorativos, muito menos contra os tradicionais uniformes reservas. Mas cada um tem seu lugar. Não em casa!

Faça sua parte: cornete, discuta, comente, ou compre uma camisa alternativa e entregue-a a mim de presente!

 

Comments

comments

  • Embora as camisas sejam a parte dos uniformes que mais chama a atenção, é inegável que meias, e principalmente calções, também podem ser protagonistas no desrespeito às tradições do clube. Não podemos esquecer que, de acordo com a superstição do Pofexô, as meias brancas foram tão ou mais importantes para a vitória do Palmeiras sobre o Corinthians na final de 1993 quanto foram as participações de Evair ou Zinho (ou de José Aparecido, diriam alguns corintianos míopes).

    Isso, é claro, para não falar da maior barbárie já cometida em termos de calções na história do futebol mundial: os calções estrelados e quadriculados do Santos de 1996 (ano em que, diga-se de passagem, a Portuguesa adotou o padrão toalha de piquenique no uniforme, o qual, como é de conhecimento geral, só fica belo com a seleção Croata…).

  • Eu também acho esses terceiros uniformes horríveis, na maioria das vezes. Mas eu não me sinto DESRESPEITADO como torcedor. Na minha opinião, não tem problema jogar em casa com outro uniforme, desde que seja bonito (o que é exceção) e eventual (uma ou outra comemoração, em especial homenagens a momentos históricos do time).

    Só não gosto quando instituem um uniforme bizarro como se fosse quase principal (pijama azul do Santos) ou mesmo em substituição ao original (lembram daquele verde degradé do Palmeiras?).

    • Minha mente havia apagado o verde degradé do Palmeiras de 2001. Agora a imagem voltou. Infelizmente…

    • Causar polêmica por causa de camisa da “linha casual” ou “linha passeio” daí já é demais pra mim…

      • Thiago Netz

        Mas eu não vejo uma camisa casual do Corinthians com verde…

        • Nem eu vi camisa casual do Palmeiras branca e preta. A camisa é cinza. Cinza não remete ninguém ao Corinthians. E não se esqueça que a grama do Itaquerão será VERDE.

          • Cinza é preto claro. Ou branco escuro.

            • Até aí, “Meu coração é vermelho, Hei hei hei, De vermelho vive o coração, eoh eoh (…) O velho comunista se aliançou, Ao rubro do rubor do meu amor” e por aí vai…

          • Thiago Netz

            Cinza é a síntese do alvinegro, como o Filipe bem disse.
            E será verde a grama da Arena Corinthians pois a FIFA é conservadora.