Um Allejo não surge por acaso

Como a “nova” CBF arrisca seu futuro ao desmanchar um dos raros atos positivos da gestão Ricardo Teixeira, as seleções de base

 

Falar mal de um trabalho desportivo é muito arriscado. Pode-se ter razão nas críticas, mas o acaso, a sorte, a fortuna ou o vento são capazes de atuar, transformando um provável perdedor em um inusitado campeão (e vice-versa). Não se trata de dar margem à injustiça no esporte, já que esta inexiste, na medida em que a justeza de uma competição encerra-se em seu resultado final. Pretende-se, tão somente, reconhecer a influência do Sobrenatural de Almeida nas contendas, atrapalhando análises e modificando pensamentos antes considerados verdades.

A defesa da racionalidade e da estrutura de treinamento como fundamentos para o êxito no futebol está, costumeiramente, condicionada aos resultados obtidos pelas equipes. O analista de resultados tem um prato cheio ao verificar que determinado time não se classificou, atacando todo o trabalho feito até então. Por outro lado, o título irá carimbar qualquer ação tomada como modelo para o futuro.

A corneta é, contudo, impiedosa.

Aproveitando a recente desclassificação do Brasil no Mundial sub-17, aliada à vexaminosa desclassificação na primeira fase do Sul-Americano sub-20 (e consequente não-classificação para o mundial da categoria, o momento é conveniente para questionar a atual gestão do futebol de base no país, em especial no que tange às seleções.

O último título do país em uma dessas categorias ocorreu no Mundial sub-20 de 2011, encerrando um hiato de 3 torneios sem o ouro, mas com resultados significativos. Entre os mais jovens, o Brasil não conquista o caneco desde o Mundial sub-17 de 2003, tendo obtido um honroso quarto lugar na edição de 2011.

Os resultados finais não são a principal diferença entre a base brasileira nos torneios anteriores e o momento atual.  A estrutura funcional da CBF modificou-se desde então, e não foi para melhor.

Em 2011, o Brasil contava com um técnico específico para cada seleção inferior. Marquinhos Santos treinava o sub-15, Emerson Ávila comandava o sub-17 e Ney Franco, o sub-20. Além disso, o atual técnico do Vitória acumulava o cargo de coordenador das seleções de base do país.

A escolha por um técnico experiente não foi mero acaso. Tratou-se do fortalecimento de um projeto cujo fito era estabelecer uma cultura ordenada de formação de atletas. Desenvolvido em conjunto com o então técnico da seleção principal, Mano Menezes, esse projeto modificou a estrutura da CBF, estabelecendo o contato entre as seleções jovens e a seleção principal, que estariam sob a guarda da Diretoria de Futebol da CBF, antes capitaneada por Andrés Sanchez, hoje extinta.

O coordenador das seleções de base não se limitou ao trabalho interno na CBF. Parte significativa do projeto de fortalecimento de cultura de base deve ser pautada nos trabalhos dos clubes. Por iniciativa de Ney Franco e de Mano Menezes, em Abril de 2012, ocorreu, na Granja Comary, o I Seminário Nacional de Categorias de Base. Entre os incipientes avanços obtidos na reunião está a definição de um Código de Ética para transferências envolvendo jogadores de base, discutido no Podcast Segue o Jogo #9.

Ao tornar patente a responsabilidade dos clubes na geração de talentos, Ney Franco aproxima-se do projeto alemão para suas categorias inferiores. Iniciado em 2000, após eliminação precoce na EUROCOPA, o processo de reestruturação tornou obrigatório a existência de academias para jovens aos clubes da primeira e da segunda divisão da Bundesliga, além de instituir critérios de controle administrativo dos clubes. Paralelamente, foram criados diversos centros de treinamento nas escolas, para crianças de 10 a 14 anos. Como resultado, os clubes se fortaleceram e a o selecionado principal também.

Castelo de cartas

Tão rápido quanto deu resultados, a estrutura das seleções de base foi desmontada. Com a festejada renúncia de Ricardo Teixeira, a não festejada ascensão de José Maria Marin e de Marco Polo Del Nero ao comando teórico e efetivo, respectivamente, da CBF marcou o início das modificações. O primeiro a sair foi Ney Franco, em julho de 2012, logo antes dos Jogos Olímpicos de Londres. O técnico foi liberado pela presidência da Confederação para acertar com o São Paulo Futebol Clube, como sinal de reaproximação política entre a entidade e a equipe.

Em sequência, houve a negativa de contratação de um substituto para a coordenação das seleções de base. Andrés Sanchez sugeriu, como demonstra o blog Prata da Casa, a contratação de Cristóvão Borges, ideia rechaçada por Marin. Posteriormente, em Novembro de 2012, decidiu-se pela demissão de Mano Menezes, em processo que ignorou a Diretoria de Seleções. Esvaziado em seu cargo, Andrés Sanchez deixou a CBF, prometendo, a partir de então, encarnar a oposição feroz ao statu quo na entidade.

Esvaziada em termos de pessoal, a base do Brasil virou-se como pôde. Emerson Ávila assumiu todas as categorias sem contar, porém, com apoio institucional. A eliminação histórica (a primeira, desde 1971) na fase inicial do Sul-Americano sub-20 gerou reação por parte da CBF. Alexandre Gallo, técnico de considerável experiência, tornou-se responsável único pelas seleções sub-17 e sub-20, eliminando, portanto, a figura do Coordenador de seleções e da Diretoria de Seleções.

Seja por economia, seja por desconsideração da importância das divisões inferiores, a mudança estrutural reflete a posição da atual diretoria técnica da seleção principal, composta por Carlos Alberto Parreira e Luiz Felipe Scolari. A base e o principal são, na percepção de ambos, desconexas em relação às categorias de base. “A Seleção não é formadora”, disse Scolari.

Analista de resultados

Como dito anteriormente, os resultados obtidos influenciam na crítica às decisões tomadas. O título na Copa das Confederações tornou silentes as críticas à postura dos técnicos tetra e pentacampeões do mundo. De forma semelhante, uma possível vitória nas categorias de base fariam com que o desmanche na estrutura fosse esquecido, alternativa que não pode ser subestimada, pela qualidade dos jogadores brasileiros.

Historicamente, há pouco o que se questionar das práticas de formação de atletas no Brasil. O número de jogadores de alto nível é bastante elevado, mesmo sem critérios e estrutura funcional avançada. A experiência internacional demonstra, entretanto, que o trabalho de base pode ser desenvolvido de forma racional, gerando resultados melhores para o conjunto do esporte Brasileiro. E, segundo o caso alemão, para a sociedade como um todo, ao exigir desempenho escolar dos jovens.

O trabalho iniciado na CBF, com técnicos exclusivos para cada seleção, submetidos a um coordenador que, por sua vez, responde a um Diretor de Seleções, pareceu ser um passo inicial do futebol do país em direção seu fortalecimento. Sua interrupção em decorrência de disputas políticas significou, contudo, a volta ao Deus-dará que sempre reinou no Brasil, dependente mais da qualidade inata de seus jogadores, jovens ou não, do que de um trabalho metódico por parte da Confederação Brasileira de Futebol.

Participe: comente, cornete, concorde ou diga que com brasileiro não há quem possa!

 

A foto de capa é de Ricardo Stuckert, retirada do site da CBF

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