Ajudem o Luxemburgo!

Por que parte da imprensa possui uma régua que só serve para medir o trabalho de Luxemburgo?

 

 

A demissão de Vanderlei Luxemburgo no início desta semana não foi surpresa para ninguém – nem mesmo para ele, muito embora suas declarações tenham sido em sentido contrário. No entanto, menos surpreendente que sua defenestração após uma incrível sequência de nove jogos sem vitória foram as reações de grande parte da imprensa.

O leitor minimamente atento sabe que há uma parcela significativa da crônica esportiva nacional que torce abertamente contra o trabalho de Luxemburgo. A cada demissão do ex-lateral esquerdo, pululam artigos opinativos perguntando quem será o próximo dirigente a cair “no conto do Pofexô”. Suas apresentações em seus novos clubes são invariavelmente acompanhadas de opiniões na imprensa de que o clube errou e que o arrependimento virá cedo ou tarde. Nem mesmo sequências de bons resultados, como a que Luxemburgo teve em seu segundo mês no Fluminense (4 vitórias, 3 empates e a liderança provisória do returno do Brasileiro), servem para acalmar as críticas ao seu trabalho. Por fim, quando a má-fase vem (e ela sempre vem para todos), parcela significativa dos articulistas que defendem a paciência com Tite refestela-se com os protestos da torcida pedindo o fim prematuro do “pojeto”.

Longe de querer aqui defender Luxemburgo, meu objetivo é simplesmente entender porque a régua usada para medir seus trabalhos é mais rigorosa que a régua usada para outros técnicos. Seria o trabalho de Luxemburgo tão ruim a ponto de justificar artigos que se aproximam de clamores para que ele seja proibido de trabalhar, como já discutido no Podcast Segue o Jogo #6?

A tese geral é de que Luxemburgo se perdeu na carreira após sua passagem frustrada no Real Madrid. De fato, olhando de longe a história parece convincente, tal como as correlações entre a queda de rendimento de Felipe Massa após quase perder sua vida em acidente em 2009.

Uma análise atenta e imparcial, no entanto, mostra que não só seus trabalhos pré-2005 não foram todos perfeitos, tal como nem todos seus trabalhos pós-Real foram os lixos que nos querem fazer crer.

Após comer alguns bocadillos de jamon serrano no Museo del Jamon e fazer um trabalho digno em Santiago Bernabéu (muito mais digno que o trabalho de Big Phil em Stamford Bridge, por exemplo), Luxemburgo em 2006 voltou ao Santos para conquistar o título Paulista que não vinha desde 1984. Para os defensores da tese de que Luxa só sabe trabalhar com elencos repletos de craques e estrelas, tentem encaixar jogadores do quilate de Domingos, Julio Manzur, Ávalos, Rodrigo Tabata ou Geílson em alguma destas duas categorias. Em 2007, com reforços do naipe de Zé Roberto, o Paulista novamente foi o único título, mas a eliminação na semifinal da Libertadores e o vice Brasileiro estão longe de caracterizarem um retumbante fracasso.

Do mesmo modo, no Palmeiras comandou a equipe para o seu primeiro título no século XXI, classificou-a à Libertadores e em 2009, quando comandava um importante processo de reformulação no elenco com a parceria da Traffic, foi demitido por afirmar que Keirrison não mais jogaria com ele no Palmeiras. Quase cinco anos depois, o antigo K-9 de fato não mais jogou no Palmeiras (e em nenhum outro clube) e Belluzzo afastou-se definitivamente da política alviverde, para o bem desta quase centenária instituição. Seria tão ruim assim o trabalho do técnico que entregou a equipe em quarto lugar no Brasileiro e que viu o multi-festejado Muricy Ramalho acabar a competição numa melancólica quinta colocação?

Sim, os anos seguintes em Santos (já na presença do filé-de-borboleta Neymar) e no comando do Atlético Mineiro foram anos terríveis na carreira do outrora vitorioso técnico. No entanto, seria seu trabalho no Flamengo de Ronaldinho Gaúcho tão ruim assim? E o que dizer de sua campanha com o Grêmio em 2012?

Alguns dirão que, com o elenco que possuía em mãos, a classificação para a Libertadores em 2011 e 2012 através do Campeonato Brasileiro “não era mais do que obrigação”. E o que se diz de todos aqueles que não conseguiram sequer cumprir estas obrigações?

Em 2011, Abel Braga com o elenco e dinheiro da Unimed também não conseguiu levar o Fluminense para além de uma vaga na Libertadores, tal como o Internacional de Falcão e Dorival. Felipão, por sua vez, teve de se contentar com a nada honrosa 11ª posição no comando do Palmeiras. Teriam tais resultados servido para decretar o fim da carreira de qualquer um destes treinadores?

Em 2012, enquanto Cuca era aclamado por levar o Galo à Libertadores, Muricy amargava a oitava posição no nacional, mesmo tendo Neymar entre seus comandados, e Fernandão e Dorival não conseguiam levar o pródigo Inter de Porto-Alegre para a competição continental, as cornetas viravam para Luxemburgo, que conquistara “apenas” a vaga para a Libertadores, com pontuação idêntica a do Corinthians campeão brasileiro de 2011.

Quando Renato Gaúcho conquistar com o Grêmio apenas a vaga para a Libertadores, as cornetas irão soar na mesma intensidade?

Aqueles que, em função de seus trabalhos recentes, afirmaram categoricamente que o Fluminense assinou sua certidão de óbito ao contratar Luxemburgo, fizeram o mesmo quando da contratação de Paulo Autuori pelo São Paulo? Afinal, após a conquista do Mundial de 2005 pelo tricolor paulista, os trabalhos de Autuori em clubes brasileiros (Cruzeiro 2007, Grêmio 2009 e Vasco 2013) definitivamente não são dignos de nota e tampouco deixam saudades nas respectivas torcidas.

Alguns trarão à baila as contratações equivocadas, e algumas vezes mal explicas, de Luxemburgo. Palmeirenses ainda hoje têm calafrios ao lembrar-se de Jorge Preá, Gladstone, Mozart e Evandro “Seleça”. Gremistas não o perdoarão por Cris e, quiçá, André Santos. Mas outros técnicos não erraram tanto quanto, ou até pior? Scolari no Palmeiras não pediu a contratação de Rivaldo do Avaí? Mano Menezes não pediu André Santos no Flamengo? Não é que teve alguém no Vasco que achou uma boa ideia trazer Cris, mesmo após suas seguidas lambanças no tricolor gaúcho? Não há diretores que contratam Ibson e Maldonado? No mais, quem não queria Vargas e Barcos em seus times?

Quando técnico do Palmeiras em 2009, Luxemburgo lançou Souza no meio-campo alviverde. Nos dois anos de Felipão no comando do time o jogador teve de ser revelação no Náutico, enquanto Márcio Araújo e João Vítor desrespeitavam a memória de Dudu e César Sampaio. As vozes se levantaram no mesmo tom para criticá-lo?

Luxemburgo não é santo e hoje definitivamente não é um dos melhores técnicos em atividade no futebol brasileiro. Aqueles que querem criticá-lo por suas condutas em outras atividades e seus problemas junto ao poder judiciário tem todo direito de fazê-lo. Aqueles que entendem que sua conduta extracampo não permite que exerça adequadamente suas funções como treinador de futebol têm direito de defender tal tese. Mas isso não significa poder deixar que tais fatos e opiniões influenciem sua visão sobre o trabalho de Luxemburgo dentro de campo. Que dentro de campo se meça Luxemburgo com a mesma régua que se medem outros treinadores. Se tal atitude for impossível, que se deixe de avaliar seu trabalho, ao invés de fazê-lo com um pretenso rigor jornalístico que inexiste.

Como torcedores queremos viver o futebol de maneira passional e irracional. Como leitores, queremos racionalidade e objetividade nas análises do que acontece dentro de campo. Para ver o futebol de maneira irracional já temos as arquibancadas, as mesas de bar e espaços virtuais como este, assumidamente parcial, assumidamente passional, assumidamente não-jornalístico…

 

 

Obs.1: minha defesa por uma análise justa dos trabalhos de Luxemburgo não se confundem com minha opinião sobre seu trabalho. Embora não considere seu trabalho no Palmeiras em 2008/09 ruim, o considero corresponsável pelo primeiro rebaixamento e não o tenho como a pessoa adequada para conduzir o Palmeiras no ano de seu ressurgimento.

Obs.2: evidentemente o título não é um pedido de ajuda ao Luxemburgo, mas sim uma referência ao texto de Arnaldo Ribeiro que se tornou um “clássico de nascença” na blogosfera esportiva brasileira, “Ajudem o Breno!”.

 

Concorda, discorda ou quer mostrar seu diploma obtido no Instituto Wanderley Luxemburgo? Comente, cornete e ouça mais sobre essa discussão no Podcast Segue o Jogo #10!

 

A foto da capa foi retirada do site oficial do Fluminense.

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