A vida deu limões ao Palmeiras. Nobre faz deles um desagradável suco azedo

Como o Palmeiras joga fora a oportunidade de montar uma equipe para 2014 utilizando-se de jogadores emprestados e emprestando suas revelações

Ao contrário do que muitos dizem, não há nada de bom em se cair para a segunda divisão de qualquer competição. É evidente que vencer na divisão inferior é mais gostoso que tomar pancada na divisão principal, mas toda vitória vem com aquele gosto amargo de que a equipe não fez nada mais que a obrigação ao enfrentar adversários inferiores do ponto de vista técnico e econômico, para não citar a perspectiva de história e tradição.

No entanto, uma vez no fundo do poço (o qual o Fluminense em 1998 provou que pode sempre ser mais fundo), há de valer a velha máxima do “se a vida te dá limões, faça uma limonada”.

Embora seja difícil acreditar que o sucesso mercadológico obtido pelo clube de Parque São Jorge em 2008 pudesse ser repetido em 2013 pelo rival e coirmão alviverde, já que a marca de dois rebaixamentos em um decênio enfraquece qualquer certeza de que tudo não passou de um acidente no percurso, é certo que a temporada na Série B pode trazer benefícios técnicos para os anos vindouros.

É precisamente do ponto de vista técnico que afirmamos sem medo de errar: a diarquia Nobre-Brunoro jogou fora o ano de 2013.

Não é preciso ser o novo Alex Ferguson para perceber que os 365 dias na segundinha (pois apenas 2003 merece o aumentativo em função do grau de dificuldade promovido pelo regulamento e demais competidores) podem ser úteis na medida em que sirvam de laboratório para a formação de um time competitivo para os anos que virão.

O próprio Palmeiras esteve perto de provar isso de maneira incontestável no ano de 2004. Com a adição de pouquíssimos jogadores (em sua maioria reservas absolutos), o mesmo elenco campeão da Série B em 2003 fez excelente campanha em 2004, não sendo poucos os palmeirenses (o autor inclusive) que afirmam que o título nacional viria naturalmente, caso Mustafá Contursi não tivesse mustafado, cedendo a maior revelação do Palmeiras para o mundo russo no meio da competição.

Assim, a Magrão, Lúcio (então ainda o terceiro melhor lateral do mundo, e que posteriormente receberia a carinhosa alcunha de Lúcio Vagabundo), Daniel, Vágner Love, Correa, Pedrinho, Muñoz, Marcos e Baiano, se juntaram Adriano Chuva, Nen, Rafael Marques, Kahê Shrek e Osmar Cambalhota. A espinha dorsal para campanhas dignas em 2004 e 2005 foi formada nos memoráveis (ou nem tanto) confrontos contra Marílias (do primo do vento, Basílio) e São Raimundos (do Rinus Michels do Amazonas, Aderbal Lana), na Série B de 2003.

Se 2012 mostrou que o Palmeiras foi incapaz de aprender com seus próprios erros de dez anos antes, 2013 tem sido pior e revela que, na Rua Turiassu, aprender com os próprios acertos parece ainda mais difícil.

Qualquer análise do elenco atual revela que o trabalho de 2013 não renderá qualquer fruto para o torcedor palmeirense no ano de seu centenário.

Iniciando-se pelo técnico, Gilson Kleina é carta fora do baralho para 2014 desde sua contratação. A falta de qualquer resultado expressivo apenas confirmou o que Nobre e 99% dos Palmeirenses já sabiam desde 2013: Kleina não é treinador para uma equipe do tamanho do Palmeiras. Nesse meio tempo, no entanto, bons nomes, como o de Mano Menezes, ficaram à disposição e foram devidamente ignorados pela Diretoria alviverde.

Na zaga, o caso mais gritante: Vílson, o único contratado em definitivo após a nebulosa troca envolvendo Barcos foi vendido ao futebol alemão por míseros R$ 700.000,00, valor inferior à comissão recebida pelo irmão do pirata do #tamojunto, de acordo com parte da imprensa, para a renovação de seu contrato em 2012. Assim, a zaga que ia se formando para 2014, com Henrique e Vílson, foi desfeita sem nem mesmo chegar a completar duas dúzias de jogos.

Entre os volantes, apenas Wesley e Eguren possuem contrato válido com o Palmeiras para 2014. No entanto, Wesley possivelmente não passará incólume pela janela de transferências do final do ano, nem tanto pelas suas apresentações, mas sim pela ânsia da diretoria em se livrar de seu alto salário, enquanto Eguren vem sendo solenemente ignorado pelo futuro desempregado Gilson Kleina. No mais, 100% dos volantes do atual elenco estão no Palmeiras por empréstimo até o final do ano (Marcelo Oliveira, Charles e Léo Gago) ou possuem contrato até o final de 2013, os quais, pela graça de San Gennaro, não devem ser renovados (os boas praças, Wendel e Márcio Araújo).

No ataque, com exceção dos esforçados (e somente esforçados) Vinícius e Caio, nenhum outro jogador possui vínculo com o Palmeiras até o fim da próxima temporada.

No mais, nem mesmo para dar experiência às revelações da base a vergonhosa segunda passagem pela Série B tem servido. Com exceção da lateral direita, onde Luís Felipe se firmou em parte pelo seu potencial, em parte pelo baixo nível de seu concorrente, Ayrton, contratado a pedido de Felipão em função de uma falta bem batida, e dos já citados Caio e Vinícius, nenhuma jovem promessa parece ter chances com Gilson Kleina – fato que parece pouco incomodar à diarquia Nobre-Brunoro. Nem mesmo João Denoni, um dos poucos destaques do fatídico ano de 2013, teve chance de desbancar Márcio Araújo do meio de campo palmeirense, acabando emprestado até o final de 2014, tal como Diego Souza. Bruno Dybal, por sua vez, nem chances de banco tem encontrado, enquanto Patrick Vieira, responsável por alguns dos poucos momentos de lucidez do meio-campo palmeirense durante as ausências do chinelo chileno, teve de buscar rodagem na segunda divisão japonesa.

Fica claro, portanto, que dos 99 anos da Sociedade Esportiva Palmeiras, 2013 poderá ser apagado da história, como mais um inútil ciclo de 365 dias, que nada deixará de herança. E pelo que se arma para 2014, os 365 dias que ainda virão não tendem a ser muito diferentes. Talvez o melhor seja mesmo desconsiderar estes anos e jogar o centenário para 2016…ou 2018. Ou 2020…

 

Edição posterior: a confirmação do fracasso da venda de Vílson para o Stuttgart em nada muda a opinião acima exposta. Nesse caso, o acerto da diretoria foi muito mais obra do acaso do que fruto de sua competência ou de um planejamento adequado e condizente com o que se espera do clube.

Comments

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  • jef

    Os jogadores atuais não são do verdão, mas temos uns 3 times espalhados pelo Brasil…. a herança maldita

  • Thiago Netz

    Não que eu ache que o calvário alviverde seja recente (talvez tenha se iniciado em 1976, salvo pontuais interregnos e anos da Parmalat), mas alguns eventos têm sido marcantes para mostrar a calamidade do clube, muito além dos resultados futebolísticos.
    As recorrentes brigas torcida organizada-elenco(aeroporto, loja do clube, agência bancária) e as demissões cíclicas dos managers são exemplos óbvios de falta de rumo e de prumo, mas nada se compara à negociação do Barcos. A não ser urgências financeiras, nada justificou, até hoje, o acordo Palmeiras-Grêmio. Jogadores que vieram são fracos (mesmo o Leandro, que, ao menos ainda tem algum potencial), não valendo a pena mantê-los numa eventual Série A.

    Isso, para mim, foi agravado por: 1. a demora em começar a se mexer, após o descenso, o que muito se deve ao calendário eleitoral; 2. a quase patologia do Palmeiras em reviver o passado. O Brunoro veio arrumar todos os problemas; o Felipão vai reviver o time campeão da Libertadores; o Valdívia voltará a ser o Mago; Henrique ainda está tentando mostrar o porquê do Barcelona tê-lo contratado, o Kléber precisou de todos esforços para ser reeditar o Gladiador, etc.

    Nada disso é exclusividade do Palestra, mas a impressão que fica é que lá é sempre em grau mais elevado que nos outros clubes. E com repercussões institucionais sempre piores.

    E, a continuar assim, quando ocorrer o afunilamento do futebol do Brasil, o Corinthians vai ter que olhar de outra forma para seu atual arquirrival.