A Copa vista pelo outro lado – relato de Holanda x Argentina

Rivalidade, provocações, futebol tenso e primeiras impressões em Itaquera

Para mim, chegar à Arena Corinthians teve importância dual. Longe de São Paulo nos últimos meses, estive ausente dos eventos de transição do local de mando de jogo do alvinegro do Bom Retiro de Itaquera paulistano. A despedida do Pacaembu e a inauguração do mais moderno estádio de futebol em terra brasilis foram notícias vivenciadas por amigos e parentes, compartilhadas em relatos e fotos, imaginadas à distância e nada mais.

A semifinal do lado B do chaveamento seria, portanto, a chance de ter um primeiro contato com minha nova casa desportiva natural (com abertura à gloriosa Arena Castelão, adotada incondicionalmente), um caminho a ser repetido nos sábados, domingos, terças, quartas e quintas-feiras, seja lá qual o horário esdrúxulo a ser determinado pela Globo ou por Marin e Del Nero pelos deuses do futebol. O histórico de confrontos entre Holanda e Argentina, então, animou-me mais ainda. Se a final de 1978 encontra-se no imaginário coletivo de injustiças da bola, mesmo daqueles que não eram nascidos à época de Videla, o incrível gol de Bergkamp, em 1998, dá noção das forças e talentos que envolvem um cotejo entre os dois países.

Somando-se à oportunidade de assistir a Messi e Robben disputando a mesma Brazuca, estava a chance de afastar-me dos bastidores do evento para vivenciar a experiência de um G.A, ou seja, de público geral. O que pode parecer pouco significa, na verdade, a consubstanciação de semanas, meses e anos de planejamento e de improviso, de estudos e de esforços, de disputas e de discussões, em uma operação para viabilizar esse curto evento, que engloba, a rigor, da abertura dos portões (conhecida como Kick Off – 3 horas) ao seu fechamento (Final Whistle + 2 horas). Logo, a partida de número 62 serviu para como uma proxy para observar o outro lado de um trabalho realizado alhures e encerrado quando o Brasil ainda sonhava com seu sexto título nacional.

O caminho até o estádio foi bastante simples, embora longo. Da Estação Faria Lima da Linha Amarela até a Estação da Luz, da Luz até Itaquera, por meio do Expresso da Copa, o trajeto demorou menos de 50 minutos e tudo organizado e bem orientado. Da estação até o estádio, muito devido à aglomeração de Hermanos e Oranjes, a caminhada foi realizada em aproximadamente meia-hora, o que deve diminuir consideravelmente nos eventos do legado (a.k.a. jogos do Corinthians).IMG-20140709-WA0019

Pelo trajeto, muitos e muitos argentinos entoando o hino “Brasil, decime qué se siente” em looping eterno e demonstrando a incrível capacidade de contar até 7. Brasileiros, ainda atordoados pela hecatombe humilhação derrota ocorrida na véspera, respondiam com insosso grito de “Mil gols, Mil gols, só Pelé”. É interessante notar como nenhuma das duas músicas é digna de muito respeito. A última vitória portenha contra uma seleção de respeito, em Copas, aconteceu no dia 24 de Junho de 1990, enquanto, do lado brasileiro, o olvido aos feitos de Romário e de Tulio é imperdoável. Já os neerlandeses não se empolgaram com o reforço da torcida canarinho e acharam mais sensato passar despercebidos em meio a tantos e diferentes rivais.

Como esperado, muitos utilizaram os últimos metros até a Arena Corinthians para tentar obter ingressos, por meios ilegais ou semilegais (considerando que a venda de entradas por fora do sistema FIFA é irregular). Alguns apelavam para o humor, enquanto outros tentavam convencer pelo cansaço, sem, aparentemente, ter êxito. Há coisas na vida que não se vende, falou um feliz portenho ao fim da partida, e cuja verdade é atemporal.

IMG-20140709-WA0046

A primeira boa impressão do estádio acontece ao se sair do metro. Ainda envolto pela massa humana que lembra a Estação da Sé às 18:00 (ou mesmo a de Itaquera, ainda mais movimentada que a nossa Central), a Arena soergue-se no horizonte. Infelizmente, a estrutura da arquibancada provisória também se faz notar e seu desmonte é uma notícia positiva aos futuros frequentadores. O resto do trajeto se faz em meio às equipes do programa Brasil Voluntário e de inúmeros Policiais Militares, garantindo a orientação correta dos torcedores junto a diferentes barreiras de checagem de ingresso. Aproximando-se do estádio, entram em ação os voluntários do COL/FIFA da área de Serviço ao Espectador e os stewards, que aumentam de número conforme nos aproximamos do Mag & Bag e das catracas de validação de ingresso.

IMG-20140709-WA0065A entrada Leste do estádio consiste em um grande paredão, a princípio pouco convidativo. Com o final do jogo, já na saída, a ativação do imenso painel de LED faz entender parte do potencial da nova casa Corinthiana. Não importa para onde se olha, a grandiosidade do projeto alvinegro se impõe, mesmo àqueles já acostumados às novas arenas. Dos banheiros às concessões, o único porém generalizado se deve às famigeradas, assimétricas e feias arquibancadas provisórias.

Foi para uma delas que me direcionei para ver o jogo. Esperava enxergar pouco mais que 22 borrões do alto das estruturas temporárias, mas minha surpresa foi grande ao perceber que a visão era bastante adequada. Estava na fileira AA, em posição centralizada, e que teve sorte de ser do lado em que os pênaltis foram disputados. Até a disputa de tiros penais, contudo, foram necessários 120 minutos de muito nervosismo e pouco futebol, do tipo necessário em uma semifinal de Copa.

IMG-20140709-WA0122IMG-20140709-WA0125 A partida em si foi o menos importante dos acontecimentos, e os jogadores compreenderam perfeitamente a situação. Um jogo amarrado, de forte marcação e poucos espaços, acarretando raras chances de gol. Chata para os neutros, incômoda para quem ainda sonhava com o Maracanã. De destaque, a estupenda performance de Mascherano, fazendo calar muitos que o criticavam por ter sido jogador da MSI do Corinthians. El jefecito foi o maior responsável por manter as chances argentinas, ao interromper o lance mais agudo de toda a partida. E, claro, a expectativa pela entrada de Tim Krul no gol holandês, negada quando da troca de Van Persie por Hunterlaar, já na prorrogação.

A disputa de pênalties foi o único momento em que as provocações trocadas entre brasileiros e argentinos deu alguma trégua. Mesmo em um jogo ruim, essa forma de decidir valoriza a emoção, deixando pouco espaço para o mérito ou desmérito nos 90 (ou 120) minutos anteriores. No fim, a sorte a competência o acaso sorriu para a equipe sul-americana, classificada para sua terceira final de Copa do Mundo, a terceira dela contra os alemães, favoritos ao título.

IMG-20140709-WA0141

Foi então hora de voltar para casa, em meio à comemoração desenfreada, provocações isoladas, lamentações menores e uma aglomeração que fez ser necessário esperar o esvaziamento da muvuca e contornar ainda presentes casos de abuso policial, na entrada da Estação Itaquera.

 E eu pude conhecer o estádio que será meu destino futebolístico de agora em diante: bonito, moderno, acessível e confortável. Mas longe.

Comente, critique, cornete e curta a página do Segue o Jogo no Facebook.

A foto de capa foi retirada do sítio Depor.pe

Comments

comments